O Teorema do Valor Médio e a Monotonicidade

Published on 2026-11-04·v1.0

Objetivos de Aprendizagem

  • Enunciar o teorema de Rolle e o Teorema do Valor Médio com todas as hipóteses, explicando para que serve cada uma.
  • Mostrar, com uma função concreta, que a conclusão falha quando se tira a continuidade no intervalo fechado ou a derivabilidade no intervalo aberto.
  • Usar o Teorema do Valor Médio para provar que derivada nula em um intervalo significa função constante, e que duas funções com a mesma derivada diferem por uma constante.
  • Decidir onde uma função cresce ou decresce pelo sinal da derivada, e explicar por que a palavra "intervalo" importa.
  • Transformar o teorema em ferramenta quantitativa: limitar a variação de uma função a partir de uma cota para a derivada.

Contexto e Motivação

A derivada é informação local: a inclinação em um ponto. A maior parte das perguntas é global. A função é maior em bb do que em aa? Quanto, no máximo? Se dois carros largam juntos e o primeiro nunca é mais lento que o segundo, o segundo pode estar na frente na chegada? O Teorema do Valor Médio é a ponte entre o local e o global: se a função é suficientemente bem comportada, a taxa média de variação em um intervalo é igual à taxa instantânea em algum ponto dentro dele.

As consequências aparecem o tempo todo: o teste da primeira derivada para extremos, o fato de que uma função fica determinada pela derivada a menos de uma constante e as cotas de erro dos métodos numéricos dependem dele. Em computação, a mesma ideia surge como cota de Lipschitz: se ∣f′∣≤L\lvert f'\rvert \le L em todo ponto, mudar a entrada em δ\delta muda a saída em no máximo LδL\delta. Aplicado a um gradiente, isso está por trás das regras de passo do gradient descent; aplicado a uma função de ativação, limita quanto ruído na entrada pode chegar à saída. Esta lição parte de the-derivative-as-a-rate-of-change e continuity-and-the-intermediate-value-theorem, e prepara extrema-concavity-and-optimization.

Teoria Central

A observação de Fermat

Suponha que ff tenha um máximo local em um ponto interior cc e que f′(c)f'(c) exista. Para h>0h > 0 pequeno, o quociente f(c+h)−f(c)h\frac{f(c+h) - f(c)}{h} é no máximo 00, e para h<0h < 0 pequeno ele é no mínimo 00. O limite existe, então é ao mesmo tempo ≤0\le 0 e ≥0\ge 0, logo f′(c)=0f'(c) = 0. O mesmo argumento vale para um mínimo local. A hipótese "f′(c)f'(c) existe" importa: ∣x∣\lvert x\rvert tem mínimo em 00 sem que a derivada seja zero, porque ela não existe ali.

O teorema de Rolle

Teorema de Rolle. Seja ff contínua em [a,b][a, b] e derivável em (a,b)(a, b), com f(a)=f(b)f(a) = f(b). Então existe c∈(a,b)c \in (a, b) com f′(c)=0f'(c) = 0.

A ideia: uma função contínua em um intervalo fechado atinge um valor máximo e um mínimo (o Teorema de Weierstrass, ou do Valor Extremo, enunciado com cuidado na próxima lição). Se os dois forem iguais a f(a)f(a), a função é constante e qualquer ponto serve. Caso contrário, um deles difere de f(a)=f(b)f(a) = f(b), logo é atingido em um ponto interior, e a observação de Fermat dá f′(c)=0f'(c) = 0.

O Teorema do Valor Médio

Teorema do Valor Médio (TVM). Seja ff contínua em [a,b][a, b] e derivável em (a,b)(a, b). Então existe c∈(a,b)c \in (a, b) com

f′(c)=f(b)−f(a)b−a.f'(c) = \frac{f(b) - f(a)}{b - a}.

Demonstração a partir de Rolle: seja m=f(b)−f(a)b−am = \frac{f(b) - f(a)}{b - a} e defina g(x)=f(x)−f(a)−m(x−a)g(x) = f(x) - f(a) - m(x - a). É ff menos a reta secante, então g(a)=g(b)=0g(a) = g(b) = 0, e gg herda a continuidade e a derivabilidade. Rolle dá cc com g′(c)=f′(c)−m=0g'(c) = f'(c) - m = 0.

Geometricamente, alguma reta tangente é paralela à secante. O teorema não diz onde está cc, só que existe um; pode haver vários.

O que falha quando uma hipótese cai

Cada hipótese tem seu papel. Três funções mostram isso.

  • f(x)=∣x∣f(x) = \lvert x\rvert em [−1,1][-1, 1]: contínua, com f(−1)=f(1)f(-1) = f(1), mas não derivável em 00. Para x≠0x \ne 0 a derivada é ±1\pm 1, nunca 00. A conclusão de Rolle falha. Em [−1,2][-1, 2] a inclinação da secante é 2−13=13\frac{2 - 1}{3} = \frac13, mas f′∈{−1,1}f' \in \{-1, 1\} onde existe, então a conclusão do TVM também falha. Uma única quina basta.
  • f(x)=x−⌊x⌋f(x) = x - \lfloor x\rfloor em [0,1][0, 1]: vale xx em [0,1)[0, 1) e volta a 00 em x=1x = 1, então f(0)=f(1)=0f(0) = f(1) = 0 e ff é derivável em (0,1)(0, 1), mas não é contínua em 11. Aqui f′(x)=1f'(x) = 1 em todo o interior, nunca 00.
  • As hipóteses são suficientes, não necessárias. Seja f(x)=x2f(x) = x^2 em [−1,1)[-1, 1) e f(1)=2f(1) = 2. É descontínua em 11, e mesmo assim a inclinação da secante é 2−12=12\frac{2 - 1}{2} = \frac12 e f′(c)=2c=12f'(c) = 2c = \frac12 em c=14c = \frac14. Falhar uma hipótese deixa o teorema mudo, não torna a conclusão falsa.

Consequências para a monotonicidade

Seja II um intervalo, e sejam ff (e gg, no item 2) contínuas em II e deriváveis nos pontos interiores.

  1. Se f′=0f' = 0 no interior de II, então ff é constante em II. Para quaisquer x1<x2x_1 < x_2 em II, o TVM dá f(x2)−f(x1)=f′(c)(x2−x1)=0f(x_2) - f(x_1) = f'(c)(x_2 - x_1) = 0.
  2. Se f′=g′f' = g' no interior de II, então f−gf - g é constante em II. Aplique o item 1 a f−gf - g, que é contínua em II porque as duas funções são. A continuidade de gg em todo II é necessária: em I=[0,1]I = [0, 1], tome f=0f = 0 e g=0g = 0 em [0,1)[0, 1) com g(1)=1g(1) = 1. Então f′=g′f' = g' em (0,1)(0, 1), mas f−gf - g não é constante.
  3. Se f′>0f' > 0 no interior de II, então ff é estritamente crescente em II. A mesma fórmula dá f(x2)−f(x1)=f′(c)(x2−x1)>0f(x_2) - f(x_1) = f'(c)(x_2 - x_1) > 0. Se f′≥0f' \ge 0, ff é não decrescente. Trocando os sinais, obtém-se decrescente.

Os três valem em um intervalo: as demonstrações precisam que dois pontos quaisquer sejam ligados por um trecho dentro do domínio.

Exemplos Resolvidos

Exemplo 1: achando cc, e um caso que falha

Rolle em f(x)=x3−3xf(x) = x^3 - 3x sobre [−3,3][-\sqrt3, \sqrt3]. Os dois valores nas extremidades são 00, pois x(x2−3)x(x^2 - 3) se anula em x=0,±3x = 0, \pm\sqrt3. A derivada é 3x2−3=3(x−1)(x+1)3x^2 - 3 = 3(x - 1)(x + 1), nula em c=±1c = \pm 1, ambos dentro do intervalo. Rolle prometia ao menos um; aqui há dois.

TVM em f(x)=xf(x) = \sqrt x sobre [1,4][1, 4]: ff é contínua em [1,4][1, 4] e derivável em (1,4)(1, 4). A inclinação da secante é 2−13=13\frac{2 - 1}{3} = \frac13. Resolvendo 12c=13\frac{1}{2\sqrt c} = \frac13 obtém-se c=32\sqrt c = \frac32, logo c=94∈(1,4)c = \frac94 \in (1, 4).

Agora um caso que falha. Aqui x2/3x^{2/3} significa (x3)2(\sqrt[3]{x})^2, o quadrado da raiz cúbica real, e x−1/3x^{-1/3} significa 1/x31/\sqrt[3]{x}, então ambas estão definidas para xx negativo. (Em código, numpy.power(-1.0, 2/3) devolve nan, enquanto numpy.cbrt(-1.0)**2 dá 1.0.) A função g(x)=x2/3g(x) = x^{2/3} em [−1,1][-1, 1] tem g(−1)=g(1)=1g(-1) = g(1) = 1 e uma cúspide em 00, onde g′g' não existe. Para x≠0x \ne 0, g′(x)=23x−1/3g'(x) = \frac{2}{3}x^{-1/3} nunca é 00, então a conclusão de Rolle falha. O hábito a criar: conferir a derivabilidade em todo ponto interior, não só nos típicos.

Exemplo 2: limitando um valor

Quanto vale 26\sqrt{26}? Aplique o TVM a x\sqrt x em [25,26][25, 26]: 26−5=12c\sqrt{26} - 5 = \frac{1}{2\sqrt c} para algum c∈(25,26)c \in (25, 26). Como c>25c > 25, c>5\sqrt c > 5, logo 26−5<110\sqrt{26} - 5 < \frac{1}{10}, o que dá 26<5,1\sqrt{26} < 5{,}1. Agora c<26<5,1\sqrt c < \sqrt{26} < 5{,}1, então 26−5>12⋅5,1=110,2≈0,09804\sqrt{26} - 5 > \frac{1}{2 \cdot 5{,}1} = \frac{1}{10{,}2} \approx 0{,}09804. Juntando, 5,0980<26<5,15{,}0980 < \sqrt{26} < 5{,}1, um intervalo rigoroso que nunca usa o valor de 26\sqrt{26}. O valor verdadeiro é 5,099025{,}09902.

A mesma técnica prova ex>1+xe^x > 1 + x para x≠0x \ne 0. Para x>0x > 0: ex−1=ecxe^x - 1 = e^c x com 0<c<x0 < c < x, e ec>1e^c > 1, então ex−1>xe^x - 1 > x. Para x<0x < 0: ex−1=ecxe^x - 1 = e^c x com x<c<0x < c < 0, então ec<1e^c < 1, e multiplicar pelo número negativo xx inverte a desigualdade: ecx>xe^c x > x. O sinal de xx muda o argumento, por isso os dois casos são escritos.

Exemplo 3: uma cota de Lipschitz para a sigmoide

A sigmoide logística σ(t)=11+e−t\sigma(t) = \frac{1}{1 + e^{-t}} tem σ′(t)=σ(t) (1−σ(t))\sigma'(t) = \sigma(t)\,(1 - \sigma(t)). Como u(1−u)≤14u(1 - u) \le \frac14 para qualquer uu, temos 0<σ′≤140 < \sigma' \le \frac14 em toda parte. O TVM então diz que, para quaisquer a<ba < b,

∣σ(b)−σ(a)∣=σ′(c) (b−a)≤b−a4.\lvert\sigma(b) - \sigma(a)\rvert = \sigma'(c)\,(b - a) \le \frac{b - a}{4}.

Tome a=0,5a = 0{,}5 e b=3b = 3. A diferença verdadeira é σ(3)−σ(0,5)≈0,3301\sigma(3) - \sigma(0{,}5) \approx 0{,}3301, a cota dá 0,6250{,}625, e a inclinação da secante é ≈0,1320\approx 0{,}1320, que é igual a σ′(c)\sigma'(c) em c≈1,684c \approx 1{,}684. A cota é folgada aqui, mas vale para qualquer par de entradas, e σ′>0\sigma' > 0 também mostra que σ\sigma é estritamente crescente.

Exemplo 4: a constante pode mudar através de um buraco

Seja h(x)=arctan⁡x+arctan⁡1xh(x) = \arctan x + \arctan\frac1x, definida para x≠0x \ne 0. Usando ddxarctan⁡x=11+x2\frac{d}{dx}\arctan x = \frac{1}{1 + x^2}, a derivada é 11+x2+11+1/x2⋅(−1x2)=0\frac{1}{1 + x^2} + \frac{1}{1 + 1/x^2}\cdot\left(-\frac{1}{x^2}\right) = 0 para todo x≠0x \ne 0. Então hh é constante em (0,∞)(0, \infty) e constante em (−∞,0)(-\infty, 0), mas o domínio não é um intervalo. De fato h(2)=h(12)≈1,5708=π2h(2) = h(\tfrac12) \approx 1{,}5708 = \frac{\pi}{2}, enquanto h(−2)≈−1,5708=−π2h(-2) \approx -1{,}5708 = -\frac{\pi}{2}. Duas constantes, uma para cada pedaço.

Equívocos Comuns e Armadilhas

  • "Derivada positiva em um ponto significa crescente perto dele." Falso. Seja f(x)=x2+x2sin⁡1xf(x) = \frac{x}{2} + x^2 \sin\frac1x com f(0)=0f(0) = 0. Então f′(0)=12>0f'(0) = \frac12 > 0, mas para x≠0x \ne 0, f′(x)=12+2xsin⁡1x−cos⁡1xf'(x) = \frac12 + 2x\sin\frac1x - \cos\frac1x, e em x=12πkx = \frac{1}{2\pi k} isso vale −12-\frac12. Inclinações negativas aparecem arbitrariamente perto de 00, então ff não é crescente em nenhum intervalo ao redor de 00. O teorema exige f′>0f' > 0 em um intervalo inteiro.
  • "Derivada negativa em todo lugar significa decrescente." Só em um intervalo. f(x)=1xf(x) = \frac1x tem f′(x)=−1x2<0f'(x) = -\frac{1}{x^2} < 0 em todo ponto do domínio, mas f(−1)=−1<f(1)=1f(-1) = -1 < f(1) = 1. Ela decresce em (−∞,0)(-\infty, 0) e em (0,∞)(0, \infty) separadamente.
  • "Estritamente crescente exige f′>0f' > 0 em todo ponto." Não: f(x)=x3f(x) = x^3 tem f′(0)=0f'(0) = 0 e continua estritamente crescente. Derivada positiva é suficiente, não necessária. O que se conclui é que f′f' não pode se anular em um intervalo inteiro.
  • "O TVM entrega o ponto cc." Ele só afirma a existência. No Exemplo 3, c≈1,684c \approx 1{,}684 precisou ser calculado à parte, e em geral pode não ter forma fechada.

Resumo

O teorema de Rolle e o Teorema do Valor Médio exigem continuidade em [a,b][a, b] e derivabilidade em (a,b)(a, b), e Rolle exige também f(a)=f(b)f(a) = f(b). Tirar uma das hipóteses pode fazer a conclusão falhar: ∣x∣\lvert x\rvert tem uma quina, x−⌊x⌋x - \lfloor x\rfloor tem um salto, e nos dois casos nenhum ponto tem a inclinação pedida. Do TVM em um intervalo saem três fatos de uso diário: derivada nula dá função constante, derivadas iguais dão funções que diferem por uma constante, e derivada positiva dá função estritamente crescente. A palavra "intervalo" não pode ser descartada, como mostram 1x\frac1x e arctan⁡x+arctan⁡1x\arctan x + \arctan\frac1x. O teorema também converte cotas sobre f′f' em cotas sobre ff, o que deu um intervalo rigoroso para 26\sqrt{26} e a constante de Lipschitz 14\frac14 da sigmoide. A próxima lição, extrema-concavity-and-optimization, usa esses fatos para transformar sinais de derivadas em máximos e mínimos.

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