Continuidade e o Teorema do Valor Intermediário

Published on 2026-11-04·v1.0

Objetivos de Aprendizagem

  • Enunciar as três condições que tornam uma função contínua em um ponto e usá-las para decidir se uma função dada é contínua ali.
  • Classificar uma descontinuidade como removível, de salto, infinita ou oscilante, e dizer qual tipo pode ser consertado redefinindo um único valor.
  • Construir funções contínuas a partir de peças contínuas conhecidas e escolher um parâmetro para que uma função definida por partes seja contínua.
  • Enunciar o Teorema do Valor Intermediário com todas as hipóteses e mostrar, por exemplos, o que dá errado quando cada uma é retirada.
  • Explicar por que o teorema é a garantia de existência por trás da busca por bisseção e reconhecer entradas em que uma troca de sinal não garante uma raiz.

Contexto e Motivação

A lição guess-and-check-and-bisection-search resolve equações sem fórmula dividindo um intervalo ao meio: mantém um low e um high, testa o ponto médio e descarta a metade que não pode conter a resposta. O laço da raiz quadrada funciona, e a lição explica por que ele é rápido. O que ela deixa em aberto é uma pergunta anterior: por que existe uma resposta dentro de [low, high]? Um programa pode dividir um intervalo ao meio para sempre sem que ninguém garanta que aquilo que ele procura existe.

O cálculo responde a isso com o Teorema do Valor Intermediário. Em linhas gerais, uma função cujo gráfico não tem quebras não consegue passar de negativa para positiva sem passar por zero. A expressão "em linhas gerais" esconde toda a dificuldade, porque "sem quebras" precisa virar uma propriedade precisa e verificável de ff. Essa propriedade é a continuidade, e é o primeiro ponto desta disciplina em que um limite serve para definir uma propriedade de uma função, e não para calcular um número.

A continuidade importa além da bisseção. Quase todo teorema sobre derivadas e integrais nas lições seguintes começa com "suponha que ff seja contínua em [a,b][a, b]", e as falhas ensinam: uma descontinuidade é onde métodos numéricos, otimizadores e simulações costumam se comportar mal, porque uma pequena mudança na entrada produz uma grande mudança na saída.

Teoria Central

Continuidade em um ponto

Uma função ff é contínua em aa quando as três condições abaixo valem:

  1. f(a)f(a) está definida.
  2. lim⁡x→af(x)\lim_{x \to a} f(x) existe.
  3. lim⁡x→af(x)=f(a)\lim_{x \to a} f(x) = f(a).

Em palavras: o valor do qual a função se aproxima (limits-intuition-and-the-formal-definition) é o valor que ela de fato assume. Forma equivalente: f(a+h)→f(a)f(a + h) \to f(a) quando h→0h \to 0, ou seja, uma mudança minúscula na entrada produz uma mudança minúscula na saída.

Uma função é contínua em um intervalo se for contínua em todos os pontos dele. Nas extremidades de um intervalo fechado [a,b][a, b] exige-se apenas o limite lateral vindo de dentro do intervalo.

A continuidade se constrói por peças. Polinômios, sin⁡x\sin x, cos⁡x\cos x e exe^x são contínuos em todo número real. Somas, diferenças, produtos e composições de funções contínuas são contínuos, e um quociente f/gf/g é contínuo onde g≠0g \neq 0. Esses fatos são as leis dos limites (limit-laws-and-indeterminate-forms) reescritas, e por isso a maioria das verificações de continuidade se reduz a procurar um ponto onde o denominador se anula ou a fórmula muda.

Tipos de descontinuidade

Quando uma das três condições falha, a forma da falha tem nome:

  • Removível: x2−1x−1\dfrac{x^2 - 1}{x - 1} em 11. O limite é 22, mas f(1)f(1) não está definida.
  • De salto: ⌊x⌋\lfloor x \rfloor em 00. Os limites laterais são −1-1 e 00, então o limite não existe.
  • Infinita: 1x\dfrac{1}{x} em 00. A função é ilimitada perto de aa.
  • Oscilante: sin⁡ ⁣(1x)\sin\!\left(\dfrac{1}{x}\right) em 00. Os valores ficam oscilando entre −1-1 e 11.

Só o tipo removível pode ser consertado, atribuindo a f(a)f(a) o valor do limite. Definir f(1)=2f(1) = 2 transforma x2−1x−1\frac{x^2-1}{x-1} na função contínua x+1x + 1.

Um ponto onde ff não está definida é um ponto onde ff não é contínua, mas isso não faz de 1x\frac{1}{x} uma função "quebrada": ela é contínua em todos os pontos do seu domínio, que simplesmente tem uma lacuna em 00. Essa distinção volta no teorema a seguir.

O Teorema do Valor Intermediário

Teorema. Seja ff contínua no intervalo fechado [a,b][a, b], e seja NN qualquer número estritamente entre f(a)f(a) e f(b)f(b). Então existe pelo menos um cc em (a,b)(a, b) com f(c)=Nf(c) = N.

O caso especial mais usado é N=0N = 0: se ff é contínua em [a,b][a, b] e f(a)f(a) e f(b)f(b) têm sinais opostos, então ff tem uma raiz em (a,b)(a, b).

Cada hipótese tem sua função, e o jeito mais rápido de ver isso é retirá-la.

  • Retire a continuidade. Seja f(x)=−1f(x) = -1 para x<0x < 0 e f(x)=1f(x) = 1 para x≥0x \geq 0, em [−1,1][-1, 1]. Os valores nas extremidades são −1-1 e 11, e mesmo assim ff nunca vale 00, nem qualquer outro número intermediário.
  • Retire o intervalo. f(x)=1xf(x) = \frac{1}{x} tem f(−1)=−1f(-1) = -1 e f(1)=1f(1) = 1 e é contínua em todo ponto onde está definida, mas não tem raiz. O intervalo [−1,1][-1, 1] não está contido no domínio, porque falta o 00.
  • Inverta a implicação. O teorema não diz que uma raiz obriga uma troca de sinal. f(x)=x2f(x) = x^2 tem raiz em 00 no intervalo [−1,1][-1, 1] embora f(−1)=f(1)=1f(-1) = f(1) = 1.
  • Troque o sistema numérico. O teorema depende de os reais não terem lacunas. Nos racionais, f(x)=x2−2f(x) = x^2 - 2 é contínua, f(0)=−2f(0) = -2 e f(2)=2f(2) = 2, e ainda assim não há raiz racional.

A conclusão também é fraca de duas maneiras que vale registrar. Ela diz "pelo menos um", não "exatamente um": x3−xx^3 - x tem três raízes em [−2,2][-2, 2]. E não diz nada sobre onde está cc. É um enunciado de existência, e achar cc é outro trabalho.

Do teorema à bisseção

Suponha ff contínua em [a,b][a, b], com f(a)f(a) e f(b)f(b) de sinais opostos. Seja m=a+b2m = \frac{a + b}{2}. Se f(m)=0f(m) = 0, a busca terminou. Caso contrário, f(m)f(m) tem o sinal de exatamente uma das extremidades, então uma das metades [a,m][a, m] e [m,b][m, b] volta a ter extremidades de sinais opostos. O teorema, aplicado a essa metade, garante uma raiz dentro dela. Repetindo o passo, após nn passos o intervalo tem largura b−a2n\frac{b - a}{2^n} e contém uma raiz.

Esse é o laço de guess-and-check-and-bisection-search. A busca pela raiz quadrada de x>0x > 0 é a bisseção de f(t)=t2−xf(t) = t^2 - x em [0,max⁡(1,x)][0, \max(1, x)]. Na extremidade esquerda, f(0)=−x<0f(0) = -x < 0; na direita, f(high)≥0f(\text{high}) \geq 0 (para x≥1x \geq 1 vale x2−xx^2 - x; para x<1x < 1 vale 1−x1 - x). O teste guess ** 2 < x é o sinal de f(guess)f(\text{guess}). Um polinômio é contínuo, então o teorema é o que torna verdadeiro, a cada passo, o invariante "há uma raiz entre low e high". Aquela lição enuncia a pré-condição como um espaço ordenado em que cada verificação revela uma direção. O teorema dá uma mais fraca e mais geral: uma troca de sinal em um intervalo onde ff é contínua, sem exigir que ff seja monótona.

Exemplos Resolvidos

Exemplo 1: escolhendo um parâmetro para a continuidade

Encontre aa para que

f(x)={ax+1x≤2x2−ax>2f(x) = \begin{cases} a x + 1 & x \leq 2 \\ x^2 - a & x > 2 \end{cases}

seja contínua em toda parte.

Cada peça é um polinômio, logo contínuo na sua região, então o único risco está em x=2x = 2. A peça da esquerda dá f(2)=2a+1f(2) = 2a + 1, que também é o limite pela esquerda. O limite pela direita é 22−a=4−a2^2 - a = 4 - a. A condição 3 pede 2a+1=4−a2a + 1 = 4 - a, portanto a=1a = 1.

Conferência com a=1a = 1: os dois lados dão 33, então o limite existe e vale f(2)=3f(2) = 3. Com qualquer outro aa, os limites laterais diferem e ff tem um salto em 22.

Exemplo 2: resolvendo cos⁡x=x\cos x = x por bisseção

Seja f(x)=cos⁡x−xf(x) = \cos x - x em [0,1][0, 1]. Ela é contínua (diferença de funções contínuas), f(0)=1>0f(0) = 1 > 0 e f(1)≈−0,4597<0f(1) \approx -0{,}4597 < 0. O teorema garante uma raiz em (0,1)(0, 1). Bisseção, mantendo a metade cujas extremidades ainda têm sinais opostos:

text
passo a b m f(m) mantém 1 0.000000 1.000000 0.500000 +0.377583 direita 2 0.500000 1.000000 0.750000 -0.018311 esquerda 3 0.500000 0.750000 0.625000 +0.185963 direita 4 0.625000 0.750000 0.687500 +0.085335 direita 5 0.687500 0.750000 0.718750 +0.033879 direita 6 0.718750 0.750000 0.734375 +0.007875 direita 7 0.734375 0.750000 0.742188 -0.005196 esquerda 8 0.734375 0.742188 0.738281 +0.001345 direita

Após oito passos, a raiz está em [0,738281,0,742188][0{,}738281, 0{,}742188], um intervalo de largura 2−8≈0,00392^{-8} \approx 0{,}0039. A raiz verdadeira, 0,7390851…0{,}7390851\ldots, está dentro dele, como o teorema exige. Para fixar a raiz em largura 10−610^{-6} partindo de largura 11, é preciso o menor nn com 2−n≤10−62^{-n} \leq 10^{-6}, que é n=20n = 20.

Essa função não tem solução em forma fechada, que é justamente a situação em que o teorema e o algoritmo se justificam.

Exemplo 3: uma troca de sinal sem raiz

Tome f(x)=1xf(x) = \frac{1}{x} em [−1,2][-1, 2]. Os valores nas extremidades são −1-1 e 0,50{,}5, sinais opostos, então o laço de bisseção começa sem reclamar. Os pontos médios se apertam em torno de 00:

text
passo intervalo após o passo f(m) 1 [-1.0, 0.5] +2 5 [-0.0625, 0.03125] +32 10 [-0.00098, 0.00195] -1024 20 [-9.5e-07, 1.9e-06] -1048576

O intervalo encolhe como prometido, mas ∣f(m)∣\lvert f(m) \rvert dobra a cada passo em vez de diminuir. O laço está convergindo para a descontinuidade, não para uma raiz. Uma proteção prática é conferir, no fim, se ∣f∣\lvert f \rvert no ponto final é de fato pequeno. Uma troca de sinal só garante uma raiz quando a hipótese de continuidade foi verificada à parte.

Equívocos Comuns e Armadilhas

  • "Contínua significa que dá para desenhar o gráfico sem tirar o lápis do papel." A imagem é razoável para uma função em um intervalo, e é como o teorema costuma ser lembrado. Ela engana em domínios com lacunas: 1x\frac{1}{x} é contínua em todo ponto onde está definida, embora o gráfico venha em dois pedaços.
  • "O teorema encontra a raiz, ou diz que ela é única." Ele só afirma que existe pelo menos uma no intervalo aberto. Onde está e quantas são, são perguntas à parte. A bisseção de x3−xx^3 - x em [−2,1,5][-2, 1{,}5] converge para −1-1 e ignora as raízes em 00 e 11.
  • "Se não há troca de sinal, não há raiz." x2x^2 em [−1,1][-1, 1] toca o zero sem trocar de sinal, então uma bisseção iniciada ali não tem o que usar. O teorema dá uma condição suficiente, não necessária.
  • "Qualquer intervalo com sinais opostos torna a bisseção segura." O Exemplo 3 é o contraexemplo. A continuidade em todo o intervalo faz parte da hipótese, e a bisseção não consegue verificá-la.
  • "No computador, a bisseção divide ao meio para sempre." Números reais podem ser divididos indefinidamente; doubles não. Aplicada a cos⁡x−x\cos x - x em [0,1][0, 1] em precisão dupla, um laço sem teste de zero divide o intervalo 53 vezes até que o ponto médio coincida com uma extremidade, deixando uma largura de cerca de 1,1×10−161{,}1 \times 10^{-16}. Com o teste de zero do algoritmo acima, a execução para um passo antes, no passo 52, em que cos(m) - m vale exatamente 0.0, uma coincidência de arredondamento e não uma prova de que mm é a raiz exata. Um laço que para quando o ponto médio repete uma extremidade sempre termina. Um laço que para pela largura do intervalo só termina se a tolerância não for menor que o espaçamento dos doubles perto da raiz, cerca de 1,1×10−161{,}1 \times 10^{-16} aqui, de modo que while b - a > 1e-20 nunca sai. Um laço que exige ∣f(m)∣\lvert f(m) \rvert abaixo de uma tolerância minúscula pode nunca chegar lá, como a lição de bisseção avisa.

Resumo

Uma função é contínua em aa quando f(a)f(a) está definida, o limite em aa existe e os dois coincidem. As falhas são de quatro tipos: removível, de salto, infinita e oscilante, e só a primeira pode ser consertada redefinindo um valor. O Teorema do Valor Intermediário diz que, se ff é contínua em [a,b][a, b], então ff assume todo valor entre f(a)f(a) e f(b)f(b) em algum ponto do intervalo; com sinais opostos nas pontas, garante uma raiz. Cada hipótese é necessária: retirar a continuidade, usar um intervalo com lacuna ou sair dos números reais quebra a conclusão, e a recíproca é falsa. A bisseção é o teorema transformado em algoritmo: cada passo mantém a metade com troca de sinal, de modo que a raiz continua presa enquanto a largura cai como 2−n2^{-n}. O teorema garante existência, não unicidade nem localização, e a bisseção não detecta sozinha uma descontinuidade. A próxima lição, the-derivative-as-a-rate-of-change, usa a mesma maquinaria de limites para perguntar com que rapidez ff varia em um ponto.

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