Coordenadas Polares

Published on 2026-11-04·v1.0

Objetivos de Aprendizagem

  • Converter pontos entre a forma polar (r,θ)(r, \theta) e a cartesiana (x,y)(x, y), escolhendo o quadrante correto de θ\theta e explicando por que um ponto tem vários nomes polares.
  • Reconhecer círculos, cardioides e rosáceas a partir de suas equações polares e reescrever uma equação polar simples em forma cartesiana.
  • Calcular a área delimitada por uma curva polar com A=12∫r2 dθA = \tfrac{1}{2}\int r^2\, d\theta, enunciar quando a fórmula conta cada ponto da região exatamente uma vez e achar a área entre duas curvas polares.
  • Explicar de onde vem o elemento de área r dr dθr\, dr\, d\theta, como preparação para integrais duplas em forma polar.

Contexto e Motivação

Uma grade de valores xx e yy nem sempre é o jeito natural de descrever uma forma. Um círculo centrado na origem exige a relação x2+y2=a2x^2 + y^2 = a^2 em forma cartesiana, mas em termos de distância e direção ele é simplesmente r=ar = a. A varredura de um radar, a fase de um número complexo e um braço robótico girando em torno de uma junta são descritos por uma distância e um ângulo, não por dois deslocamentos perpendiculares.

As coordenadas polares dão a cada ponto uma distância rr até a origem e um ângulo θ\theta medido no sentido anti-horário a partir do eixo xx positivo. O preço é que a descrição deixa de ser única, e várias regras conhecidas (área, limites de integração) mudam de forma. Esta lição constrói o vocabulário e a fórmula de área de uma variável. A próxima, double-integrals-cartesian-and-polar, a usa para integrar sobre regiões incômodas em xx e yy. A trigonometria usada aqui é a das famílias revistas em functions-and-the-elementary-families, e a fórmula de área reaproveita a integral de applications-area-volume-and-average-value.

Teoria Central

Conversão e os vários nomes de um ponto

Os dois sistemas se ligam por

x=rcos⁡θ,y=rsin⁡θ,r2=x2+y2.x = r\cos\theta, \qquad y = r\sin\theta, \qquad r^2 = x^2 + y^2.

Passar de polar para cartesiano é substituição direta. No sentido oposto, r=x2+y2r = \sqrt{x^2 + y^2} é seguro, mas o ângulo pede cuidado. A relação tan⁡θ=y/x\tan\theta = y/x tem duas soluções a cada volta completa, então θ=arctan⁡(y/x)\theta = \arctan(y/x) cai em (−π/2,π/2)(-\pi/2, \pi/2) e erra para todo ponto com x<0x < 0. Também falha em x=0x = 0, onde y/xy/x não existe embora o ângulo seja ±π/2\pm\pi/2. A regra robusta é escolher o θ\theta cujo cosseno tem o sinal de xx e cujo seno tem o sinal de yy. As linguagens de programação empacotam isso na função de dois argumentos atan2(y, x), que devolve um ângulo em (−π,π](-\pi, \pi]; somar 2π2\pi a um resultado negativo leva ao intervalo [0,2π)[0, 2\pi).

Um ponto tem infinitos nomes polares. Somar qualquer múltiplo de 2π2\pi a θ\theta dá o mesmo ponto, e um rr negativo significa "andar a mesma distância no sentido oposto":

(r,θ)=(r,θ+2πk)=(−r,θ+π).(r, \theta) = (r, \theta + 2\pi k) = (-r, \theta + \pi).

A origem é (0,θ)(0, \theta) para todo θ\theta. Essa falta de unicidade afeta toda fórmula posterior: a mesma curva pode ser percorrida duas vezes, ou passar pela origem em ângulos diferentes, e uma fórmula que soma sobre θ\theta passa a contar alguns pontos mais de uma vez.

Três famílias de curvas

Três equações cobrem quase tudo o que aparece na prática.

  • Círculos pela origem. r=2acos⁡θr = 2a\cos\theta é o círculo de raio aa centrado em (a,0)(a, 0). Multiplicar por rr dá x2+y2=2axx^2 + y^2 = 2ax, ou seja, (x−a)2+y2=a2(x - a)^2 + y^2 = a^2. A multiplicação é inofensiva aqui porque a origem já está na curva (em θ=π/2\theta = \pi/2). A curva é percorrida exatamente uma vez para θ∈[0,π]\theta \in [0, \pi] e uma segunda vez para θ∈[π,2π]\theta \in [\pi, 2\pi], porque r(θ+π)=−r(θ)r(\theta + \pi) = -r(\theta), de modo que (r(θ+π),θ+π)(r(\theta + \pi), \theta + \pi) nomeia o mesmo ponto que (r(θ),θ)(r(\theta), \theta).
  • Cardioides. r=a(1+cos⁡θ)r = a(1 + \cos\theta) é uma curva em forma de coração, com uma ponta (cúspide) na origem. Em forma cartesiana, para a=1a = 1, é (x2+y2−x)2=x2+y2(x^2 + y^2 - x)^2 = x^2 + y^2.
  • Rosáceas. r=cos⁡(nθ)r = \cos(n\theta) tem nn pétalas quando nn é ímpar e 2n2n quando nn é par. Em r=cos⁡2θr = \cos 2\theta, as duas pétalas sobre o eixo xx são desenhadas onde cos⁡2θ>0\cos 2\theta > 0, e as duas sobre o eixo yy vêm dos ângulos em que r<0r < 0, de modo que a curva é desenhada no sentido oposto ali.

Área em forma polar

Um setor fino de raio rr e ângulo Δθ\Delta\theta tem área 12r2 Δθ\tfrac{1}{2} r^2\, \Delta\theta (a fração Δθ/2π\Delta\theta / 2\pi da área πr2\pi r^2 do disco). Somar esses setores e passar ao limite, como na integral definida de the-definite-integral-and-riemann-sums, dá

A=12∫αβr(θ)2 dθ.A = \frac{1}{2}\int_{\alpha}^{\beta} r(\theta)^2\, d\theta.

As hipóteses são o que importa. A função r(θ)r(\theta) precisa ser contínua em [α,β][\alpha, \beta]. A fórmula mede a área varrida pelo segmento que vai da origem até a curva, contando um ponto uma vez a cada passagem da varredura por ele. Por isso ela só iguala a área da região delimitada quando todo ponto da região é varrido exatamente uma vez, o que exige em particular β−α≤2π\beta - \alpha \le 2\pi e uma curva que não se repete no intervalo escolhido. Quando a varredura cobre parte da região duas vezes, a integral superestima a área, como mostra a segunda armadilha abaixo.

Para duas curvas, com rext(θ)≥rint(θ)≥0r_{\text{ext}}(\theta) \ge r_{\text{int}}(\theta) \ge 0 no intervalo, a região entre elas tem área 12∫(rext2−rint2) dθ\tfrac{1}{2}\int (r_{\text{ext}}^2 - r_{\text{int}}^2)\, d\theta. A curva externa e a interna podem trocar de papel no meio do caminho, então o intervalo deve ser dividido nos ângulos em que as curvas se cruzam.

De onde virá o fator rr

Tome o "retângulo polar" entre os raios rr e r+Δrr + \Delta r e os ângulos θ\theta e θ+Δθ\theta + \Delta\theta. É uma fatia de anel, com área 12((r+Δr)2−r2)Δθ=rˉ Δr Δθ\tfrac{1}{2}\big((r + \Delta r)^2 - r^2\big)\Delta\theta = \bar r\, \Delta r\, \Delta\theta, onde rˉ=r+Δr/2\bar r = r + \Delta r/2 é o raio do meio. Diferente de um retângulo no plano xyxy, sua área não é o produto dos incrementos dos lados: ela também cresce com rr. Esse rr extra é o elemento de área dA=r dr dθdA = r\, dr\, d\theta que a próxima lição prova com um jacobiano.

Exemplos Resolvidos

Exemplo 1: convertendo pontos

O ponto (−1,1)(-1, 1) tem r=2r = \sqrt{2}. Como x<0x < 0 e y>0y > 0, ele está no segundo quadrante, então θ=3π/4\theta = 3\pi/4. A fórmula arctan⁡(y/x)=arctan⁡(−1)=−π/4\arctan(y/x) = \arctan(-1) = -\pi/4 nomeia o ponto diferente (1,−1)(1, -1). Em Python, math.atan2(1, -1) devolve 2,3562=3π/42{,}3562 = 3\pi/4, enquanto math.atan(1 / -1) devolve −0,7854-0{,}7854. Para (3,−4)(3, -4), r=5r = 5 e θ≈−0,9273\theta \approx -0{,}9273 rad, ou 5,35595{,}3559 rad em [0,2π)[0, 2\pi).

No sentido contrário, (2,5π/6)(2, 5\pi/6) vira (2cos⁡5π/6, 2sin⁡5π/6)=(−3,1)(2\cos 5\pi/6,\ 2\sin 5\pi/6) = (-\sqrt{3}, 1). O nome (−2,π/6)(-2, \pi/6) dá (−3,−1)(-\sqrt{3}, -1), que é o ponto (2,7π/6)(2, 7\pi/6): o raio negativo inverte a direção.

Exemplo 2: área de uma cardioide

Para r=1+cos⁡θr = 1 + \cos\theta em [0,2π][0, 2\pi] a curva é percorrida uma vez, então

A=12∫02π(1+cos⁡θ)2 dθ=12∫02π(1+2cos⁡θ+1+cos⁡2θ2)dθ=12(2π+0+π)=3π2.A = \frac{1}{2}\int_0^{2\pi} (1 + \cos\theta)^2\, d\theta = \frac{1}{2}\int_0^{2\pi} \Big(1 + 2\cos\theta + \frac{1 + \cos 2\theta}{2}\Big) d\theta = \frac{1}{2}\Big(2\pi + 0 + \pi\Big) = \frac{3\pi}{2}.

Uma quadratura numérica dá 4,7124=3π/24{,}7124 = 3\pi/2, e uma contagem Monte Carlo dos pontos com r≤1+cos⁡θr \le 1 + \cos\theta em uma caixa envolvente dá 4,7144{,}714 com 2×1062\times 10^6 amostras (semente 1).

Exemplo 3: área de uma rosácea de quatro pétalas

Para r=cos⁡2θr = \cos 2\theta, cada pétala é percorrida uma vez em [0,2π][0, 2\pi]. A área das quatro é

A=12∫02πcos⁡22θ dθ=12⋅π=π2,A = \frac{1}{2}\int_0^{2\pi} \cos^2 2\theta\, d\theta = \frac{1}{2}\cdot\pi = \frac{\pi}{2},

então cada pétala tem área π/8\pi/8. Integrar só em [−π/4,π/4][-\pi/4, \pi/4] dá uma pétala, π/8=0,3927\pi/8 = 0{,}3927 na conferência numérica.

Exemplo 4: área dentro de dois círculos

Ache a área dentro de r=1r = 1 e de r=2cos⁡θr = 2\cos\theta ao mesmo tempo. Igualar 1=2cos⁡θ1 = 2\cos\theta dá os ângulos de cruzamento θ=±π/3\theta = \pm\pi/3. Perto de θ=0\theta = 0 o círculo r=1r = 1 está mais perto da origem, e de π/3\pi/3 a π/2\pi/2 é o círculo r=2cos⁡θr = 2\cos\theta que está mais perto. Por simetria em relação ao eixo xx,

A=2[12∫0π/31 dθ+12∫π/3π/24cos⁡2θ dθ]=2π3−32≈1,2284.A = 2\left[\frac{1}{2}\int_0^{\pi/3} 1\, d\theta + \frac{1}{2}\int_{\pi/3}^{\pi/2} 4\cos^2\theta\, d\theta\right] = \frac{2\pi}{3} - \frac{\sqrt{3}}{2} \approx 1{,}2284.

A primeira parte contribui com π/3\pi/3 e a segunda com π/3−3/2\pi/3 - \sqrt{3}/2. A integração numérica do menor dos dois raios dá 1,22841{,}2284, e uma estimativa Monte Carlo (2×1062\times 10^6 amostras, semente 1) dá 1,22781{,}2278. Uma única fórmula em todo o intervalo estaria errada, porque a curva interna muda em π/3\pi/3.

Equívocos Comuns e Armadilhas

  • "θ=arctan⁡(y/x)\theta = \arctan(y/x) sempre funciona." Só está correto para x>0x > 0. Para x<0x < 0 erra por π\pi, e em x=0x = 0 divide por zero (math.atan(1 / 0) levanta ZeroDivisionError em Python, enquanto math.atan2(1, 0) devolve π/2\pi/2). Use uma arco-tangente de dois argumentos.
  • "Integre 12r2\tfrac{1}{2}r^2 em [0,2π][0, 2\pi] para qualquer curva." Para r=2cos⁡θr = 2\cos\theta isso dá 12∫02π4cos⁡2θ dθ=2π\tfrac{1}{2}\int_0^{2\pi} 4\cos^2\theta\, d\theta = 2\pi, mas o disco delimitado tem área π\pi (raio 1). A varredura cobre o disco duas vezes. Em [0,π][0, \pi] a integral é π\pi, a área correta. A rosácea r=cos⁡3θr = \cos 3\theta se comporta do mesmo modo: é percorrida uma vez em [0,π][0, \pi] (área π/4\pi/4) e duas vezes em [0,2π][0, 2\pi] (valor π/2\pi/2). Já r=cos⁡2θr = \cos 2\theta é percorrida uma vez em [0,2π][0, 2\pi], então ali o intervalo maior é o certo. Pergunte sempre em que intervalo a curva se fecha sem se repetir.
  • "Duas curvas polares se encontram onde suas equações são iguais." Resolver r1(θ)=r2(θ)r_1(\theta) = r_2(\theta) pode perder interseções, porque um ponto tem vários nomes. As cardioides r=1+cos⁡θr = 1 + \cos\theta e r=1−cos⁡θr = 1 - \cos\theta são iguais apenas em θ=±π/2\theta = \pm\pi/2, mas ambas também passam pela origem, a primeira em θ=π\theta = \pi e a segunda em θ=0\theta = 0. Verifique a origem e os nomes alternativos (−r,θ+π)(-r, \theta + \pi) à parte, e confirme com um esboço.
  • "O elemento de área é dr dθdr\, d\theta." O pequeno retângulo polar tem área aproximada r Δr Δθr\, \Delta r\, \Delta\theta. Esquecer o rr é o erro mais comum quando as coordenadas polares entram numa integral dupla.

Resumo

As coordenadas polares descrevem um ponto por distância rr e ângulo θ\theta, ligados a (x,y)(x, y) por x=rcos⁡θx = r\cos\theta, y=rsin⁡θy = r\sin\theta e r2=x2+y2r^2 = x^2 + y^2. O ângulo deve ser escolhido pelo quadrante (atan2), e todo ponto tem vários nomes, inclusive com rr negativo. Círculos pela origem, cardioides e rosáceas são as curvas padrão. A área varrida por r(θ)r(\theta) é 12∫r2 dθ\tfrac{1}{2}\int r^2\, d\theta, válida como área delimitada só quando cada ponto é varrido uma vez, e a área entre curvas exige dividir o intervalo nos ângulos de cruzamento. O pequeno retângulo polar tem área r Δr Δθr\, \Delta r\, \Delta\theta, a semente do elemento de área usado na próxima lição.

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