Sequências e Convergência
Objetivos de Aprendizagem
- Descrever uma sequência como uma função nos números naturais, dada por uma fórmula explícita ou por uma recorrência.
- Enunciar a definição de convergência com e , ler corretamente seus quantificadores e usá-la para achar dada uma tolerância.
- Calcular limites de sequências com as leis de limites, o teorema do confronto e funções contínuas, conferindo cada hipótese.
- Enunciar o teorema da convergência monótona, usá-lo em uma sequência definida por recorrência e mostrar que, sem qualquer uma das hipóteses, a conclusão falha.
- Explicar por que "termos consecutivos ficam próximos" não implica convergência, e o que isso significa para critérios de parada em algoritmos iterativos.
Contexto e Motivação
A lição anterior, improper-integrals, tomou um limite quando uma variável contínua crescia sem parar. Boa parte da computação troca essa variável contínua por um contador de passos: o método de Newton refina uma estimativa a cada iteração, o gradiente descendente produz uma lista de vetores de parâmetros, uma média acumulada é recalculada conforme os dados chegam. Em cada caso a pergunta é a mesma: a lista de números se estabiliza, e em quê?
Uma sequência é uma lista de números reais, formalmente uma função de em , escrita . Os termos podem ser dados por uma fórmula, como , ou por uma regra que constrói cada termo a partir dos anteriores, como com . Começar o índice em ou em é questão de conveniência e não afeta nada do que segue. Os limites de funções quando foram estudados em limits-at-infinity-and-asymptotic-growth; aqui a variável só assume valores inteiros, o que facilita alguns argumentos e muda algumas afirmações.
Teoria Central
A definição de convergência
A sequência converge para se, para todo , existe um índice tal que
Em palavras: qualquer que seja a tolerância exigida, os termos acabam dentro dela e ficam lá. A ordem dos quantificadores importa. O índice pode depender de , e em geral precisa depender, já que uma tolerância menor pede um início mais tardio. Uma sequência que não converge para nenhum número real diverge. Isso inclui sequências que crescem sem limite (podemos escrever como abreviação, mas o limite não é um número real) e sequências que oscilam, como .
Dois fatos básicos decorrem daí. O limite é único. E uma sequência convergente é limitada, porque depois do índice todos os termos estão a distância menor que de , e só há finitos termos antes. A recíproca é falsa: é limitada e diverge.
Alterar finitos termos nunca muda se a sequência converge, nem o seu limite. Por isso afirmações como "a sequência é monótona a partir de certo ponto" bastam nas demonstrações.
Calculando limites
Se e , então , e desde que (e ). Para uma constante , . Essas leis espelham as leis de limites de funções, e só valem quando os dois limites existem: separar uma soma em duas parcelas divergentes não prova nada.
Teorema do confronto. Se para todo e , , então .
Funções contínuas. Se , todo está no domínio de e é contínua em , então . A continuidade em é essencial. Seja para e . Então e para todo , de modo que .
De funções para sequências. Se quando e , então . A volta falha: converge, enquanto não tem limite quando .
O teorema da convergência monótona
Uma sequência é não decrescente se para todo , e não crescente se . O teorema:
Se é não decrescente e limitada superiormente, ela converge. Se é não crescente e limitada inferiormente, ela converge.
Quando converge, o limite de uma sequência não decrescente é a menor cota superior dos seus termos. Essa é a grande conveniência do teorema: ele prova que o limite existe sem saber qual é. As duas hipóteses são necessárias. A sequência é monótona e não é limitada, e diverge. A sequência é limitada e não é monótona, e também diverge. Além disso, uma cota superior não é, em geral, o limite: é limitada superiormente por e converge para .
O teorema depende de os números reais não terem lacunas. Dentro dos racionais ele falha: a sequência de frações do Exemplo 3 abaixo é monótona a partir do segundo termo e limitada, mas seu limite não é racional.
Um uso clássico: a sequência é crescente e limitada superiormente por (os dois fatos podem ser provados com o binômio de Newton), logo converge, e seu limite é o número :
textn (1 + 1/n)^n 1 2.0 10 2.5937 100 2.7048 1000 2.7169 1000000 2.7183
Exemplos Resolvidos
Exemplo 1: achando a partir de
Mostre que . Calcule a distância até o limite proposto:
Isso fica abaixo de exatamente quando . Então, para qualquer , qualquer inteiro serve.
textepsilon n deve superar menor N 0.1 48 49 0.01 498 499 0.001 4998 4999
Conferindo : em a distância é , enquanto em ela vale exatamente , que não é menor que . A demonstração está completa porque a mesma álgebra vale para todo , e não porque três valores foram testados.
Exemplo 2: uma recorrência e o teorema da convergência monótona
Seja e . Os primeiros termos são .
Limitada. Se , então e . Como , a indução dá para todo .
Crescente. De ,
e, como os termos são positivos, .
O limite. Pelo teorema da convergência monótona, para algum . Só agora é legítimo tomar limites nos dois lados da recorrência. Como a raiz quadrada é contínua, , logo e ou . Todo termo é pelo menos , então .
A distância vale para , encolhendo por um fator próximo de a cada passo (as razões são ).
Exemplo 3: a iteração de Newton para
Comece com e faça . Em frações exatas os termos são . O erro , calculado em alta precisão, é:
textn a_n a_n - sqrt(2) 1 1 -0.4142 2 1.5 0.0858 3 1.416667 2.45e-3 4 1.4142157 2.12e-6 5 1.41421356237469 1.59e-12 6 1.41421356237309505 9.0e-25
O número de dígitos corretos mais ou menos dobra a cada passo. Para provar a convergência, note que, para , a desigualdade entre as médias aritmética e geométrica dá para todo . Então, para , temos , e
A sequência é não crescente a partir de e limitada inferiormente por , logo converge. (O primeiro termo está abaixo de , e por isso a monotonicidade começa em .) O limite satisfaz , portanto .
Em aritmética de precisão dupla, os iterados calculados param de mudar no sexto termo, de modo que o programa chega a um ponto fixo, uma versão concreta de uma sequência eventualmente constante. Uma versão com frações exatas nunca para, porque os denominadores não param de crescer.
Exemplo 4: espremendo um fatorial
Mostre que . Escreva . Todo fator, exceto o primeiro, é no máximo , então , e as duas cotas tendem a . O teorema do confronto dá o limite. Os valores reais caem muito mais rápido que a cota:
textn n!/n^n 1/n 5 0.0384 0.2 10 3.6288e-04 0.1 20 2.3202e-08 0.05 50 3.4243e-21 0.02
A cota é válida mas grosseira, e uma cota válida e grosseira é tudo de que o confronto precisa.
Equívocos Comuns e Armadilhas
- "Toda sequência limitada converge." A sequência é limitada por e diverge. Ser limitada é metade do teorema da convergência monótona, nunca ele inteiro.
- "Se , a sequência converge." Tome . O passo vale cerca de , e a sequência chega a em sem teto. Um laço que para "quando valores sucessivos diferem menos que uma tolerância" pode parar sobre uma sequência que diverge. A regra é uma heurística; ela se justifica quando a taxa de convergência é conhecida, como no Exemplo 3.
- "Resolva para achar o limite." Isso só é válido depois de a convergência estar estabelecida. Seja e . Resolver dá , mas os termos são , que crescem sem limite.
- "A cota superior é o limite." A sequência é limitada por e converge para . Só a menor cota superior é o limite de uma sequência não decrescente.
- " não depende de ." Em geral, depende. No Exemplo 1, vai de a conforme cai de para .
- "Se , então ." Falso, como mostra. A implicação vai da função para a sequência, e só nesse sentido.
- "As leis de limites separam qualquer limite." Elas valem quando cada parcela converge. Para e , ambas divergem, mas converge.
Resumo
Uma sequência é uma função nos números naturais, e converge para quando, para toda tolerância , os termos acabam permanentemente a menos de de . Sequências convergentes têm limite único e são limitadas, embora sequências limitadas não precisem convergir. Os limites se calculam com as leis de limites (só quando cada parcela converge), o teorema do confronto e funções contínuas (contínuas no limite). O teorema da convergência monótona diz que uma sequência não decrescente e limitada superiormente, ou não crescente e limitada inferiormente, converge, e é a ferramenta para recorrências cujo limite não se conhece de antemão: primeiro provar a existência, depois resolver para o valor. Termos sucessivos ficarem próximos não basta, o que importa para critérios de parada. A próxima lição, arithmetic-and-geometric-progressions, estuda em forma fechada as duas famílias mais simples de sequências e decide exatamente quando a geométrica converge.