Equações Diferenciais Separáveis

Published on 2026-11-04·v1.0

Objetivos de Aprendizagem

  • Reconhecer uma equação separável y′=g(t) h(y)y' = g(t)\,h(y) e executar a separação de variáveis, incluindo a justificativa por trás da notação.
  • Achar as soluções constantes (equilíbrios) de h(y)=0h(y) = 0 e explicar por que dividir por h(y)h(y) pode perdê-las.
  • Resolver a equação logística, identificar seus equilíbrios e a capacidade de suporte, e dizer qual solução a fórmula não cobre.
  • Resolver a lei de resfriamento de Newton e ajustar sua constante a partir de uma medida.
  • Verificar qualquer solução substituindo-a de volta e indicar o intervalo em que vale.

Contexto e Motivação

A lição anterior, differential-equations-and-initial-value-problems, resolveu y′=kyy' = ky chutando a exponencial e provando que era a única solução. Chutar não escala. Uma população não cresce exponencialmente para sempre, e uma xícara que esfria não perde calor a uma taxa fixa: a taxa depende do valor atual de um modo que não é simplesmente proporcional a ele. Uma grande família dessas equações se resolve com duas integrais.

Essa família são as equações separáveis, em que o lado direito se fatora em uma parte que depende só de tt e outra que depende só de yy. Dois membros famosos são a equação logística, que modela crescimento com saturação, e a lei de resfriamento de Newton. A curva logística também aparece em computação como a sigmoide usada em regressão logística e redes neurais. No caminho você vai encontrar o principal perigo do método: uma divisão que descarta uma solução sem avisar.

Teoria Central

A forma separável e o método

Uma equação é separável se pode ser escrita como

y′=g(t) h(y),y' = g(t)\,h(y),

com gg contínua em um intervalo e hh contínua. Então:

  1. Resolva h(y)=0h(y) = 0. Cada raiz y∗y^* dá uma solução constante y≡y∗y \equiv y^*, porque os dois lados valem 00.
  2. Onde h(y)≠0h(y) \neq 0, divida: y′h(y)=g(t)\dfrac{y'}{h(y)} = g(t).
  3. Integre os dois lados em relação a tt. Seja HH uma primitiva de 1/h1/h e GG uma de gg. Pela regra da cadeia, ddtH(y(t))=H′(y) y′=y′/h(y)=g(t)\frac{d}{dt}H(y(t)) = H'(y)\,y' = y'/h(y) = g(t), então H(y(t))−G(t)H(y(t)) - G(t) tem derivada nula.
  4. Em um intervalo, função de derivada nula é constante, logo H(y(t))=G(t)+CH(y(t)) = G(t) + C.
  5. Isole yy se der; senão, deixe a relação implícita. Use a condição inicial para fixar CC.
  6. Substitua o resultado na equação e na condição inicial e indique o intervalo.

O passo 4 em uma linha:

H(y(t))=G(t)+C.H(y(t)) = G(t) + C.

A notação usual dyh(y)=g(t) dt\frac{dy}{h(y)} = g(t)\,dt, integrada de cada lado, comprime os passos 2 a 4, e a integral da esquerda é uma substituição (integration-by-substitution-and-by-parts). O argumento da regra da cadeia é o que legitima a notação, porque dy/dtdy/dt é limite de quocientes, não uma fração que se possa partir livremente. Ele exige h(y(t))≠0h(y(t)) \neq 0 para todo tt do intervalo, que é o que o passo 2 supôs.

Soluções perdidas ao dividir

O passo 2 divide por h(y)h(y), então exclui sem avisar as soluções em que h(y)=0h(y) = 0. Essas são as soluções constantes do passo 1, chamadas equilíbrios, e a fórmula geral dos passos 3 a 5 pode ou não contê-las.

  • Às vezes um valor especial da constante recupera o equilíbrio. Para y′=2tyy' = 2ty, a fórmula y=Aet2y = Ae^{t^2} contém y≡0y \equiv 0 em A=0A = 0.
  • Às vezes não. Na equação logística abaixo, nenhum valor finito da constante dá P≡0P \equiv 0.

Por isso, liste sempre as raízes de hh primeiro e decida, uma a uma, se a fórmula final as cobre. Se não cobre, a resposta é a fórmula mais a solução extra.

Quando a divisão é segura no resto do plano? Suponha gg contínua e hh com derivada contínua, de modo que g(t)h(y)g(t)h(y) e sua derivada em yy, g(t)h′(y)g(t)h'(y), sejam contínuas e o teorema de unicidade da lição anterior se aplique. Então uma solução não constante nunca alcança um equilíbrio, pois isso poria duas soluções por um mesmo ponto. Cada solução fica em uma faixa entre raízes consecutivas de hh, onde h≠0h \neq 0, e a divisão se justifica. Sem essa hipótese, soluções podem sair de um equilíbrio, como em y′=3y2/3y' = 3y^{2/3} da lição anterior.

A equação logística

O crescimento exponencial P′=kPP' = kP não tem teto. A equação logística acrescenta um:

P′=kP(1−PM),k>0, M>0.P' = kP\left(1 - \frac{P}{M}\right), \qquad k > 0,\ M > 0.

Quando PP é pequeno perto de MM, o fator entre parênteses fica próximo de 11 e o crescimento é quase exponencial. Quando PP se aproxima de MM, o fator tende a 00 e o crescimento para. O número MM é a capacidade de suporte (carrying capacity). A equação é separável com h(P)=kP(1−P/M)h(P) = kP(1 - P/M), então os equilíbrios são P=0P = 0 e P=MP = M.

Para 0<P<M0 < P < M (os mesmos passos valem nas outras faixas, com AA de qualquer sinal), as frações parciais dão 1P(1−P/M)=1P+1M−P\dfrac{1}{P(1 - P/M)} = \dfrac{1}{P} + \dfrac{1}{M - P}. Separando e integrando:

ln⁡∣P∣−ln⁡∣M−P∣=kt+c⟹PM−P=Aekt,A=±ec≠0.\ln\lvert P\rvert - \ln\lvert M - P\rvert = kt + c \quad\Longrightarrow\quad \frac{P}{M - P} = Ae^{kt}, \quad A = \pm e^{c} \neq 0.

Isolando PP e escrevendo C=1/AC = 1/A:

P(t)=M1+Ce−kt,C=M−P0P0.P(t) = \frac{M}{1 + Ce^{-kt}}, \qquad C = \frac{M - P_0}{P_0}.

O que a fórmula cobre e o que perde. C=0C = 0 dá o equilíbrio P≡MP \equiv M. Nenhum CC finito dá P≡0P \equiv 0, que foi removido quando dividimos por PP, então nesta parametrização P≡0P \equiv 0 é uma solução perdida e deve ser declarada à parte. A lacuna é da parametrização, não da equação. Escrevendo a família como P=MAekt/(1+Aekt)P = MAe^{kt}/(1 + Ae^{kt}), recupera-se P≡0P \equiv 0 em A=0A = 0 e perde-se P≡MP \equiv M. Parametrizando pelo valor inicial, P(t)=MP0ektM−P0+P0ektP(t) = \dfrac{M P_0 e^{kt}}{M - P_0 + P_0 e^{kt}}, cobrem-se os dois: P0=0P_0 = 0 e P0=MP_0 = M dão os dois equilíbrios (em qualquer intervalo em que o denominador não se anula).

A forma da curva sai da fórmula. Para 0<P0<M0 < P_0 < M ela é um S: crescente, com crescimento mais rápido em P=M/2P = M/2, onde P′=kM/4P' = kM/4, tendendo a MM. Para P0>MP_0 > M, a solução decresce até MM. Para P0<0P_0 < 0 (sem sentido para uma população) o denominador se anula em tempo finito e a solução explode. O equilíbrio 00 repele e MM atrai toda solução que começa em valor positivo.

A lei de resfriamento de Newton

A lei de resfriamento de Newton diz que a temperatura TT de um objeto varia a uma taxa proporcional à diferença para o ambiente:

T′=−k (T−Tenv),k>0,T' = -k\,(T - T_{\text{env}}), \qquad k > 0,

com TenvT_{\text{env}} constante. É separável, com um único equilíbrio T=TenvT = T_{\text{env}}. Para T≠TenvT \neq T_{\text{env}},

ln⁡∣T−Tenv∣=−kt+c⟹T(t)=Tenv+(T0−Tenv) e−kt.\ln\lvert T - T_{\text{env}}\rvert = -kt + c \quad\Longrightarrow\quad T(t) = T_{\text{env}} + (T_0 - T_{\text{env}})\,e^{-kt}.

Aqui a solução perdida é recuperada: T0=TenvT_0 = T_{\text{env}} dá T≡TenvT \equiv T_{\text{env}}. A temperatura se aproxima de TenvT_{\text{env}} mas, neste modelo, não a alcança em tempo finito.

A lei é uma aproximação empírica. Descreve razoavelmente o resfriamento quando a perda de calor é sobretudo por convecção e a diferença de temperatura é moderada. A radiação cresce mais que linearmente com a temperatura, e a evaporação de uma bebida quente acrescenta perda própria, então dados reais se afastam de uma exponencial única. A constante kk depende do objeto e do entorno e se obtém de uma medida.

Exemplos Resolvidos

Exemplo 1: solução perdida que a constante recupera

Resolva y′=2tyy' = 2ty, y(0)=3y(0) = 3. Aqui g(t)=2tg(t) = 2t e h(y)=yh(y) = y, com equilíbrio y≡0y \equiv 0. Para y≠0y \neq 0:

y′y=2t⟹ln⁡∣y∣=t2+c⟹y=Aet2,A=±ec.\frac{y'}{y} = 2t \quad\Longrightarrow\quad \ln\lvert y\rvert = t^2 + c \quad\Longrightarrow\quad y = Ae^{t^2}, \quad A = \pm e^{c}.

Então y(0)=A=3y(0) = A = 3, e y=3et2y = 3e^{t^2}. Substituição: y′=6tet2=2t⋅3et2=2tyy' = 6te^{t^2} = 2t\cdot 3e^{t^2} = 2ty, e y(0)=3y(0) = 3. Vale para todo real tt. A solução perdida y≡0y \equiv 0 é o membro A=0A = 0 da família, e a condição inicial escolhe A=3A = 3 de qualquer modo. Uma integração numérica dá y(1)=8,1548y(1) = 8{,}1548, igual a 3e=8,15483e = 8{,}1548.

Exemplo 2: solução implícita e intervalo restrito

Resolva y′=−t/yy' = -t/y, y(0)=2y(0) = 2. Aqui h(y)=1/yh(y) = 1/y não está definida em y=0y = 0, então y=0y = 0 não é equilíbrio, e sim um ponto que a solução precisa evitar. Separando, y y′=−ty\,y' = -t, logo

y22=−t22+c⟹t2+y2=C.\frac{y^2}{2} = -\frac{t^2}{2} + c \quad\Longrightarrow\quad t^2 + y^2 = C.

A condição inicial dá C=4C = 4. Essa relação é um círculo, mas solução é função, e a condição y(0)=2>0y(0) = 2 > 0 escolhe a metade de cima: y=4−t2y = \sqrt{4 - t^2}. Substituição: y′=−t/4−t2=−t/yy' = -t/\sqrt{4 - t^2} = -t/y e y(0)=2y(0) = 2. A fórmula vale em (−2,2)(-2, 2): em t=±2t = \pm 2 temos y=0y = 0, onde a equação não está definida e a inclinação da semicircunferência é infinita. Para y(0)=−2y(0) = -2 a solução é a metade de baixo, −4−t2-\sqrt{4 - t^2}. Uma integração numérica até t=1,9t = 1{,}9 dá 0,62450{,}6245, igual a 4−1,92\sqrt{4 - 1{,}9^2}.

Exemplo 3: a equação logística com números

Sejam k=0,4k = 0{,}4, M=100M = 100, P(0)=10P(0) = 10. Então C=(100−10)/10=9C = (100 - 10)/10 = 9 e

P(t)=1001+9e−0,4t.P(t) = \frac{100}{1 + 9e^{-0{,}4t}}.

Substituição: com E=e−0,4tE = e^{-0{,}4t}, P′=100⋅9⋅0,4 E(1+9E)2P' = \dfrac{100\cdot 9\cdot 0{,}4\,E}{(1 + 9E)^2}, e 0,4 P (1−P/100)=0,4⋅1001+9E⋅9E1+9E0{,}4\,P\,(1 - P/100) = 0{,}4\cdot\dfrac{100}{1 + 9E}\cdot\dfrac{9E}{1 + 9E}, que é igual; além disso P(0)=100/10=10P(0) = 100/10 = 10. Valores, comparados com uma integração numérica da EDO:

text
t P(t) numérico 0 10.0000 10.0000 5 45.0853 45.0853 10 85.8486 85.8486 15 97.8178 97.8178 20 99.6990 99.6990 30 99.9945 99.9945

A população chega a M/2=50M/2 = 50 quando 9e−0,4t=19e^{-0{,}4t} = 1, em t=ln⁡9/0,4≈5,49t = \ln 9/0{,}4 \approx 5{,}49, onde a taxa de crescimento é a máxima, kM/4=10kM/4 = 10. Começando acima da capacidade, com P(0)=150P(0) = 150, tem-se C=−1/3C = -1/3 e P=100/(1−e−0,4t/3)P = 100/(1 - e^{-0{,}4t}/3), que cai em direção a 100100 (vale 100,011100{,}011 em t=20t = 20). Essa fórmula vale para t>−ln⁡3/0,4≈−2,75t > -\ln 3/0{,}4 \approx -2{,}75, então cobre todo t≥0t \ge 0. A solução perdida P≡0P \equiv 0 é o caso P(0)=0P(0) = 0: a fórmula falha ali porque C=(M−P0)/P0C = (M - P_0)/P_0 não está definido.

Exemplo 4: café esfriando

Uma xícara de café a 90 ∘C90\,^\circ\text{C} está em uma sala a 20 ∘C20\,^\circ\text{C} e marca 70 ∘C70\,^\circ\text{C} após 55 minutos. Então T=20+70e−ktT = 20 + 70e^{-kt} e 70=20+70e−5k70 = 20 + 70e^{-5k}, logo e−5k=5/7e^{-5k} = 5/7 e k=ln⁡(7/5)/5≈0,0673 min−1k = \ln(7/5)/5 \approx 0{,}0673\ \text{min}^{-1}. Após 1010 minutos, T=20+70⋅(5/7)2≈55,71T = 20 + 70\cdot(5/7)^2 \approx 55{,}71. Para chegar a 40 ∘C40\,^\circ\text{C}: 70e−kt=2070e^{-kt} = 20, então t=ln⁡3,5/k≈18,62t = \ln 3{,}5/k \approx 18{,}62 minutos. Substituição: T′=−70ke−kt=−k(T−20)T' = -70ke^{-kt} = -k(T - 20) e T(0)=90T(0) = 90.

Exemplo 5: a sigmoide é solução de uma logística

A sigmoide σ(t)=1/(1+e−t)\sigma(t) = 1/(1 + e^{-t}) satisfaz σ′=σ(1−σ)\sigma' = \sigma(1 - \sigma), a equação logística com k=M=1k = M = 1. Com σ(0)=1/2\sigma(0) = 1/2, a constante é C=(1−1/2)/(1/2)=1C = (1 - 1/2)/(1/2) = 1, o que dá a sigmoide. Verificação: σ′=e−t/(1+e−t)2\sigma' = e^{-t}/(1 + e^{-t})^2 e σ(1−σ)=11+e−t⋅e−t1+e−t\sigma(1 - \sigma) = \frac{1}{1 + e^{-t}}\cdot\frac{e^{-t}}{1 + e^{-t}}, iguais. Em t=3t = 3, a fórmula e uma integração numérica dão 0,95260{,}9526. Pelo teorema de unicidade, esse PVI não tem outra solução. Por isso o código de gradiente de uma ativação sigmoide pode calcular a derivada só a partir da saída.

Equívocos Comuns e Armadilhas

  • "É só dividir, e a fórmula é a resposta toda." Dividir por h(y)h(y) descarta as raízes de hh. Na equação logística, a resposta é a fórmula mais P≡0P \equiv 0.
  • "dy/dxdy/dx é uma fração, então vale tudo." A reescrita é justificada pela regra da cadeia e por uma substituição. Ela deixa de valer em qualquer tt onde h(y(t))=0h(y(t)) = 0.
  • Esquecer o módulo em ln⁡∣y∣\ln\lvert y\rvert. Escrever ln⁡y\ln y restringe, sem avisar, a yy positivo. Mantenha ∣⋅∣\lvert\cdot\rvert e depois absorva ±ec\pm e^{c} em uma constante só.
  • Pôr uma constante em cada lado. Uma basta; duas são redundantes.
  • Pegar o sinal errado da raiz. No Exemplo 2, t2+y2=4t^2 + y^2 = 4 não é uma função. A condição inicial escolhe o ramo.
  • "A solução vive na reta toda." A do Exemplo 2 vive em (−2,2)(-2, 2), e as soluções logísticas com P0<0P_0 < 0 explodem em tempo finito. Indique o intervalo.
  • "Toda equação de primeira ordem é separável." y′=t+yy' = t + y não é: a razão entre suas inclinações em duas alturas depende de tt, o que um produto g(t)h(y)g(t)h(y) não produz.

Resumo

Uma equação separável y′=g(t)h(y)y' = g(t)h(y) se resolve achando as raízes de hh, dividindo onde h≠0h \neq 0 e integrando, com a regra da cadeia justificando a notação e o fato de derivada nula em intervalo implicar constante dando a constante única. A divisão descarta os equilíbrios, então toda solução deve ser conferida contra eles: y′=2tyy' = 2ty recupera y≡0y \equiv 0 pela constante, enquanto a equação logística P′=kP(1−P/M)P' = kP(1 - P/M) tem a fórmula P=M/(1+Ce−kt)P = M/(1 + Ce^{-kt}), que contém P≡MP \equiv M e perde P≡0P \equiv 0. A lei de resfriamento de Newton dá T=Tenv+(T0−Tenv)e−ktT = T_{\text{env}} + (T_0 - T_{\text{env}})e^{-kt}, uma aproximação cuja constante se ajusta a uma medida. Toda resposta é verificada substituindo-a na equação e na condição inicial, e vem acompanhada do intervalo de validade.

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