O Teorema Fundamental do Cálculo

Published on 2026-11-04·v1.0

Objetivos de Aprendizagem

  • Enunciar as duas partes do Teorema Fundamental do Cálculo com todas as hipóteses, e dizer qual delas responde "qual é a derivada de uma integral" e qual responde "como avalio uma integral".
  • Derivar funções definidas por integrais, inclusive com limites variáveis, usando a regra da cadeia.
  • Calcular integrais definidas como F(b)−F(a)F(b)-F(a) e explicar por que a constante de integração desaparece.
  • Separar deslocamento de distância total quando a velocidade troca de sinal.
  • Mostrar com um caso concreto que, sem uma das hipóteses, cada parte falha.
  • Usar funções de acúmulo para grandezas sem antiderivada elementar, como a erf⁡\operatorname{erf}.

Contexto e Motivação

Em the-definite-integral-and-riemann-sums a integral era um limite de somas, e o valor exato até de ∫0bx2 dx\int_0^b x^2\,dx exigiu uma fórmula de somatório e um limite. Já antiderivatives-and-initial-value-problems inverteu a derivação sem falar de área. O Teorema Fundamental do Cálculo (TFC) diz que esses dois projetos são o mesmo projeto: acumular uma taxa e desfazer uma derivada são operações inversas. Ele transforma um limite de nn termos em duas avaliações de função.

Em computação o teorema aparece de duas formas. Toda grandeza acumulada (total de bytes enviados a partir de uma taxa, uma função de distribuição acumulada a partir de uma densidade) tem a taxa como derivada. E quando não dá para escrever uma antiderivada, como no caso da curva em sino, o teorema ainda informa a derivada da grandeza acumulada, que é o que métodos numéricos e ajuste por gradiente precisam.

Uma observação sobre nomes: o OpenStax chama o enunciado da derivada de Parte 1 e o da avaliação de Parte 2, como esta lição faz. O MIT 18.01SC e o Active Calculus chamam o enunciado da avaliação de primeiro teorema e o da derivada de segundo. Confira a convenção da fonte antes de citar "o primeiro teorema".

Teoria Central

Funções de acúmulo

Para ff integrável em [a,b][a,b], defina F(x)=∫axf(t) dtF(x) = \int_a^x f(t)\,dt para x∈[a,b]x\in[a,b]. A variável de integração é muda, então use uma letra (tt) diferente da do limite superior (xx). F(x)F(x) é a área líquida acumulada de aa até xx.

Parte 1: a derivada de um acúmulo

Teorema. Se ff é contínua em [a,b][a,b] e F(x)=∫axf(t) dtF(x)=\int_a^x f(t)\,dt, então FF é contínua em [a,b][a,b], derivável em (a,b)(a,b) e F′(x)=f(x)F'(x) = f(x) para todo x∈(a,b)x\in(a,b) (derivadas laterais nas extremidades).

A ideia: F(x+h)−F(x)h=1h∫xx+hf(t) dt\frac{F(x+h)-F(x)}{h} = \frac1h\int_x^{x+h} f(t)\,dt é a média de ff em [x,x+h][x,x+h]. Quando h→0h\to0 esse intervalo colapsa em xx, e a continuidade força a média a se aproximar de f(x)f(x). Numericamente, para f=cos⁡f=\cos em x=0,5x=0{,}5 as médias são 0,7241 (h=0,5h=0{,}5), 0,8522 (0,10{,}1), 0,87517 (0,010{,}01), 0,87734 (0,0010{,}001), rumo a cos⁡0,5=0,87758\cos 0{,}5 = 0{,}87758.

Com limites variáveis, ff contínua e g,hg,h deriváveis:

ddx∫h(x)g(x)f(t) dt=f(g(x)) g′(x)−f(h(x)) h′(x)\frac{d}{dx}\int_{h(x)}^{g(x)} f(t)\,dt = f(g(x))\,g'(x) - f(h(x))\,h'(x)

Parte 2: avaliação

Teorema. Se ff é contínua em [a,b][a,b] e FF é uma antiderivada qualquer de ff em [a,b][a,b] (isto é, F′=fF'=f ali), então

∫abf(x) dx=F(b)−F(a)=[F(x)]ab\int_a^b f(x)\,dx = F(b) - F(a) = \big[F(x)\big]_a^b

Por quê: G(x)=∫axfG(x)=\int_a^x f é uma antiderivada pela Parte 1. Duas antiderivadas num intervalo diferem por uma constante (derivada zero num intervalo significa função constante, veja the-mean-value-theorem-and-monotonicity), então F=G+CF = G + C e F(b)−F(a)=G(b)−G(a)=∫abfF(b)-F(a) = G(b)-G(a) = \int_a^b f. Se você escrever F+CF+C, o CC some na subtração, então integrais definidas não precisam de constante.

A continuidade de ff é a condição suficiente simples. O teorema vale de forma mais geral quando ff é integrável e FF é contínua em [a,b][a,b] com F′=fF'=f exceto em finitos pontos. Por exemplo, F(x)=x2sin⁡(1/x)F(x)=x^2\sin(1/x) com F(0)=0F(0)=0 tem F′(x)=2xsin⁡(1/x)−cos⁡(1/x)F'(x)=2x\sin(1/x)-\cos(1/x) para x≠0x\ne0 e F′(0)=0F'(0)=0, que é limitada mas descontínua em 00, e ∫01F′=F(1)−F(0)=sin⁡1≈0,8415\int_0^1F'=F(1)-F(0)=\sin1\approx0{,}8415.

Variação líquida

Leia a Parte 2 com FF como uma grandeza e f=F′f=F' como sua taxa: ∫abF′(x) dx=F(b)−F(a)\int_a^b F'(x)\,dx = F(b)-F(a), a variação líquida. Para uma velocidade vv, ∫abv dt\int_a^b v\,dt é o deslocamento e ∫ab∣v∣ dt\int_a^b \lvert v\rvert\,dt é a distância percorrida. Elas diferem sempre que vv troca de sinal.

Programas usam o gêmeo discreto dessa ideia o tempo todo. Com um vetor de somas prefixadas P[k]=∑i≤kaiP[k]=\sum_{i\le k} a_i, a soma de qualquer faixa é P[b]−P[a−1]P[b]-P[a-1]: a soma da taxa, obtida como diferença de dois valores acumulados, sem percorrer a faixa. A Parte 2 é a mesma troca para ff contínua, e a diferença ak=P[k]−P[k−1]a_k = P[k]-P[k-1] faz o papel de F′=fF'=f.

Quando as hipóteses falham

  • Parte 2 com ff ilimitada. Em [−1,1][-1,1] tome f(x)=1/x2f(x)=1/x^2 e F(x)=−1/xF(x)=-1/x. Então F′=fF'=f para x≠0x\ne0, mas FF não é contínua em 00 e ff é ilimitada ali. A subtração mecânica dá F(1)−F(−1)=−1−1=−2F(1)-F(-1) = -1-1 = -2, um número negativo para uma função positiva. A função é ilimitada em 00, então não tem integral de Riemann. Somas de ponto médio com n=10,100,1000,10000n=10, 100, 1000, 10000 valem 47,4, 491,5, 4932,8, 49346,0: crescem aproximadamente como nn e nunca se estabilizam (o sympy responde ∞\infty).
  • Parte 1 sem continuidade. Seja f(x)=1f(x)=1 para x≠0x\ne0 e f(0)=0f(0)=0. Mudar um valor não altera nenhuma integral, então ∫0xf=x\int_0^x f = x, cuja derivada em 00 é 11, e não f(0)=0f(0)=0. Do mesmo modo, f(t)=sgn⁡tf(t)=\operatorname{sgn}t dá ∫0xf=∣x∣\int_0^x f=\lvert x\rvert, sem derivada em 00.

Integrais sem antiderivada elementar

e−t2e^{-t^2} é contínua, então ∫0xe−t2dt\int_0^x e^{-t^2}dt existe e a Parte 1 dá sua derivada, mas nenhuma combinação de funções elementares tem e−x2e^{-x^2} como derivada. O acúmulo é uma função nova, erf⁡(x)=2π∫0xe−t2dt\operatorname{erf}(x) = \frac{2}{\sqrt\pi}\int_0^x e^{-t^2}dt, com erf⁡′(x)=2πe−x2\operatorname{erf}'(x) = \frac{2}{\sqrt\pi}e^{-x^2}. Os valores vêm de integração numérica.

Exemplos Resolvidos

Exemplo 1: limites variáveis

Seja G(x)=∫xx2dt1+t4G(x)=\int_x^{x^2}\frac{dt}{1+t^4}. Os dois limites dependem de xx:

G′(x)=2x1+x8−11+x4G'(x) = \frac{2x}{1+x^8} - \frac{1}{1+x^4}

Em x=1,3x=1{,}3 a fórmula dá 0,024596887090{,}02459688709. Uma diferença central de integrais numéricas dá 0,024596887110{,}02459688711. Para um único limite variável, ddx∫0x2e−t2dt=2x e−x4\frac{d}{dx}\int_0^{x^2}e^{-t^2}dt = 2x\,e^{-x^4}, com o fator 2x2x vindo da regra da cadeia.

Exemplo 2: avaliando com uma antiderivada

∫14(3x+2x)dx=[2x3/2+2ln⁡x]14=(16+2ln⁡4)−2=14+4ln⁡2≈16,7726\int_1^4\Big(3\sqrt{x}+\frac2x\Big)dx = \Big[2x^{3/2} + 2\ln x\Big]_1^4 = (16 + 2\ln4) - 2 = 14 + 4\ln 2 \approx 16{,}7726

Derivar 2x3/2+2ln⁡x2x^{3/2}+2\ln x devolve 3x+2/x3\sqrt x + 2/x, e a quadratura dá 16,7725887216{,}77258872. O ln⁡\ln é legítimo porque [1,4][1,4] está em x>0x>0, onde 1/x1/x é contínua.

Exemplo 3: deslocamento contra distância

Uma partícula tem v(t)=t2−4t+3=(t−1)(t−3)v(t)=t^2-4t+3=(t-1)(t-3) em [0,4][0,4], com antiderivada t33−2t2+3t\frac{t^3}{3}-2t^2+3t. O sinal muda em t=1t=1 e t=3t=3, então divida ali:

∫01v=43,∫13v=−43,∫34v=43\int_0^1 v = \tfrac43, \qquad \int_1^3 v = -\tfrac43, \qquad \int_3^4 v = \tfrac43

O deslocamento é 43−43+43=43\frac43-\frac43+\frac43 = \frac43; a distância é 43+43+43=4\frac43+\frac43+\frac43 = 4. Integrar vv no intervalo inteiro e chamar de "distância" informaria 43\frac43, errado por um fator 3.

Exemplo 4: lendo uma função de acúmulo

Seja F(x)=∫0x(t−1)(t−2) dt=x33−3x22+2xF(x)=\int_0^x (t-1)(t-2)\,dt = \frac{x^3}{3}-\frac{3x^2}{2}+2x. Pela Parte 1, F′(x)=(x−1)(x−2)F'(x)=(x-1)(x-2), positiva para x<1x<1, negativa em (1,2)(1,2) e positiva para x>2x>2. Então FF sobe, desce e sobe: máximo local em x=1x=1 com F(1)=56F(1)=\frac56 e mínimo local em x=2x=2 com F(2)=23F(2)=\frac23. A integração numérica dá 0,83330{,}8333 e 0,66670{,}6667, e F(3)=32F(3)=\frac32. O formato de FF foi lido do sinal de ff sem calcular FF.

Exemplo 5: uma função sem fórmula

Pela Parte 1, erf⁡′(0,7)=2πe−0,49=0,69127486\operatorname{erf}'(0{,}7) = \frac{2}{\sqrt\pi}e^{-0{,}49} = 0{,}69127486, e uma diferença finita da erf⁡\operatorname{erf} da biblioteca concorda a 10−1110^{-11}. Somas de ponto médio de 2π∫01e−t2dt\frac{2}{\sqrt\pi}\int_0^1 e^{-t^2}dt com n=4,8,16,64,256n=4, 8, 16, 64, 256 dão 0,84487, 0,84324, 0,84284, 0,842709, 0,842701, contra erf⁡(1)=0,8427007929\operatorname{erf}(1)=0{,}8427007929. Valores como os da tabela Z de the-normal-distribution vêm desse tipo de integração numérica: P(∣Z∣<1)=erf⁡(1/2)=0,6827P(\lvert Z\rvert<1) = \operatorname{erf}(1/\sqrt2) = 0{,}6827, os cerca de 68% da regra 68-95-99,7.

Equívocos Comuns e Armadilhas

  • "Qualquer FF com F′=fF'=f fora de alguns pontos serve." FF também precisa ser contínua em [a,b][a,b]. Tome f=0f=0 e F=⌊x⌋F=\lfloor x\rfloor em [0,2][0,2]: F′=fF'=f exceto nos inteiros, mas F(2)−F(0)=2F(2)-F(0)=2 enquanto ∫02f=0\int_0^2f=0. O salto de −1/x-1/x em 00 (Teoria Central) é a mesma falha. Uma quina é inofensiva: F=∣x∣F=\lvert x\rvert com f=sgn⁡f=\operatorname{sgn} em [−1,2][-1,2] dá F(2)−F(−1)=1=∫−12sgn⁡F(2)-F(-1)=1=\int_{-1}^{2}\operatorname{sgn}.
  • "A derivada de ∫ag(x)f\int_a^{g(x)} f é f(g(x))f(g(x))." Falta a derivada interna: é f(g(x)) g′(x)f(g(x))\,g'(x). E se os dois limites são constantes, a derivada é 00, porque a integral é um número.
  • "Integral definida precisa de +C+C." A constante some. Escrevê-la não faz mal, mas não faz parte da resposta.
  • "A integral da velocidade é a distância." É o deslocamento. A distância pede ∫∣v∣\int\lvert v\rvert, dividida nas trocas de sinal.
  • "Parte 1 e Parte 2 são o mesmo fato." A Parte 1 produz antiderivadas para toda ff contínua (inclusive as sem fórmula); a Parte 2 usa uma antiderivada que você já tem para calcular um número.
  • Reusar xx como limite e como variável, como em ∫0xf(x) dx\int_0^x f(x)\,dx. Funciona, mas convida a erros na derivação. Renomeie a variável interna.

Resumo

Para ff contínua em [a,b][a,b], a Parte 1 diz que o acúmulo F(x)=∫axf(t) dtF(x)=\int_a^x f(t)\,dt é derivável com F′=fF'=f, e com limites variáveis a regra da cadeia acrescenta fatores g′(x)g'(x). A Parte 2 diz que ∫abf=F(b)−F(a)\int_a^b f = F(b)-F(a) para qualquer antiderivada FF, então integrais definidas viram duas avaliações e a constante de integração se cancela. Lida como variação líquida, a integral de uma taxa é a variação da grandeza, e por isso a velocidade dá o deslocamento e ∫∣v∣\int\lvert v\rvert dá a distância. A Parte 1 exige continuidade de ff no ponto em questão (um único valor alterado a quebra ali). A Parte 2 exige ff integrável e FF contínua em [a,b][a,b]: 1/x21/x^2 em [−1,1][-1,1] falha nas duas, e F=⌊x⌋F=\lfloor x\rfloor com f=0f=0 mostra que um salto em FF quebra a fórmula. Quando não existe antiderivada elementar, como em e−t2e^{-t^2}, a função de acúmulo continua bem definida e com derivada conhecida, e seus valores vêm de integração numérica. A próxima lição, integration-by-substitution-and-by-parts, constrói as técnicas para achar antiderivadas.

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