A Regra de L'Hôpital

Published on 2026-11-04·v1.0

Objetivos de Aprendizagem

  • Enunciar a Regra de L'Hôpital para 00\frac00 e ∞∞\frac{\infty}{\infty} com todas as hipóteses, inclusive a mais esquecida: o limite do quociente das derivadas precisa existir.
  • Reconhecer limites em que a regra não se aplica e limites em que ela se aplica mas não ajuda.
  • Reescrever as formas 0⋅∞0 \cdot \infty, ∞−∞\infty - \infty, 1∞1^\infty, 000^0 e ∞0\infty^0 para que a regra se torne utilizável.
  • Provar que logaritmos crescem mais devagar que qualquer potência positiva, e potências mais devagar que exponenciais, e ligar isso à comparação de tempos de execução de algoritmos.

Contexto e Motivação

As leis de limites de limit-laws-and-indeterminate-forms não dizem nada quando um quociente tem a forma 00\frac00 ou ∞∞\frac{\infty}{\infty}. Fatorar e racionalizar funcionam para expressões algébricas, mas não ajudam em algo como ex−1−xx2\frac{e^x - 1 - x}{x^2} quando x→0x \to 0. A Regra de L'Hôpital troca o quociente de duas funções pelo quociente de suas derivadas, que costuma ser bem mais simples. A ideia é que, perto do ponto do limite, uma função derivável se comporta como sua reta tangente, então a razão das funções se comporta como a razão das inclinações.

A regra também é a ferramenta padrão para a hierarquia de dominância de limits-at-infinity-and-asymptotic-growth, que é o cálculo por baixo de big-o-and-asymptotic-complexity: ela prova que nln⁡nn \ln n cresce mais devagar que n1,5n^{1,5} e que polinômios crescem mais devagar que exponenciais. Mas a regra é um teorema com hipóteses, e tratá-la como o hábito mecânico de "derivar em cima e embaixo" é uma fonte confiável de respostas erradas. Esta lição dedica tanto tempo a quando ela falha quanto a quando funciona.

Teoria Central

O enunciado

Regra de L'Hôpital. Sejam ff e gg deriváveis em um intervalo aberto que contém aa, exceto possivelmente em aa, com g′(x)≠0g'(x) \ne 0 para x≠ax \ne a nesse intervalo. Suponha que

  1. lim⁡x→af(x)=0\lim_{x \to a} f(x) = 0 e lim⁡x→ag(x)=0\lim_{x \to a} g(x) = 0, ou que ∣f∣\lvert f\rvert e ∣g∣\lvert g\rvert tendam ambos a ∞\infty; e
  2. lim⁡x→af′(x)g′(x)\lim_{x \to a} \frac{f'(x)}{g'(x)} exista, como número finito ou como ±∞\pm\infty.

Então

lim⁡x→af(x)g(x)=lim⁡x→af′(x)g′(x).\lim_{x \to a} \frac{f(x)}{g(x)} = \lim_{x \to a} \frac{f'(x)}{g'(x)}.

O mesmo enunciado vale para limites laterais e para x→±∞x \to \pm\infty. A demonstração é um refinamento do Teorema do Valor Médio (a forma de Cauchy, que compara duas funções no mesmo ponto intermediário). Uma checagem rápida de plausibilidade para 00\frac00: se f(a)=g(a)=0f(a) = g(a) = 0 e ambas são deriváveis em aa com g′(a)≠0g'(a) \ne 0, então f(x)g(x)=f(x)−f(a)g(x)−g(a)\frac{f(x)}{g(x)} = \frac{f(x) - f(a)}{g(x) - g(a)}, e dividir em cima e embaixo por x−ax - a dá f′(a)g′(a)\frac{f'(a)}{g'(a)} no limite.

Repare no sentido da implicação. Se o quociente das derivadas tem limite, o original também tem. A recíproca é falsa. A condição 1 diz que a regra serve só para formas indeterminadas. A condição 2 diz que um quociente de derivadas que fica oscilando não informa nada.

Reescrevendo as outras formas indeterminadas

A regra precisa de um quociente. As outras formas são convertidas antes.

  • 0⋅∞0 \cdot \infty: escreva f⋅gf \cdot g como f1/g\frac{f}{1/g} ou g1/f\frac{g}{1/f}, o que tiver derivadas mais simples.
  • ∞−∞\infty - \infty: junte em uma só fração, ou fatore.
  • 1∞1^\infty, 000^0, ∞0\infty^0: para y=f(x)g(x)y = f(x)^{g(x)} com f>0f > 0, tome logaritmos: ln⁡y=g(x)ln⁡f(x)\ln y = g(x)\ln f(x) é uma forma 0⋅∞0 \cdot \infty. Se ln⁡y→ℓ\ln y \to \ell, então y→eℓy \to e^\ell, porque a exponencial é contínua. É a positividade de ff que torna o logaritmo legítimo.

Exemplos Resolvidos

Exemplo 1: a regra em ação

Calcule lim⁡x→0ex−1−xx2\lim_{x \to 0} \frac{e^x - 1 - x}{x^2}. Numerador e denominador tendem a 00, então a forma é 00\frac00. Derivar dá ex−12x\frac{e^x - 1}{2x}, que de novo é 00\frac00. Derivar mais uma vez dá ex2\frac{e^x}{2}, que tende a 12\frac12. A segunda aplicação só foi válida porque o primeiro resultado ainda era indeterminado. Pare no momento em que a forma deixa de ser indeterminada: aplicar a regra a ex2\frac{e^x}{2} seria um erro. Uma conferência numérica concorda: em x=0,1; 0,01; 0,001x = 0{,}1;\ 0{,}01;\ 0{,}001 o quociente vale 0,517090{,}51709, 0,501670{,}50167 e 0,500170{,}50017.

Exemplo 2: três maneiras de a regra falhar

Não se aplica: a forma não é indeterminada. Tome lim⁡x→1x2+1x+1\lim_{x \to 1} \frac{x^2 + 1}{x + 1}. O numerador tende a 22 e o denominador a 22, então a continuidade dá o limite 11. Derivar assim mesmo dá 2x1→2\frac{2x}{1} \to 2, uma resposta errada.

Não se aplica: o quociente das derivadas não tem limite. Tome lim⁡x→∞x+sin⁡xx\lim_{x \to \infty} \frac{x + \sin x}{x}. A forma é ∞∞\frac{\infty}{\infty} e as funções são deriváveis, mas o quociente das derivadas é 1+cos⁡x1\frac{1 + \cos x}{1}, que fica oscilando entre 00 e 22 e não tem limite. A condição 2 falha, então a regra não diz nada. O limite original existe do mesmo jeito: x+sin⁡xx=1+sin⁡xx\frac{x + \sin x}{x} = 1 + \frac{\sin x}{x} e ∣sin⁡x∣x≤1x→0\frac{\lvert\sin x\rvert}{x} \le \frac1x \to 0 pelo teorema do confronto, logo o limite é 11. Um segundo exemplo do mesmo problema é lim⁡x→0x2sin⁡(1/x)sin⁡x\lim_{x \to 0} \frac{x^2 \sin(1/x)}{\sin x}. É 00\frac00, mas o quociente das derivadas 2xsin⁡(1/x)−cos⁡(1/x)cos⁡x\frac{2x\sin(1/x) - \cos(1/x)}{\cos x} oscila perto de 00. Já o original é xsin⁡x⋅xsin⁡1x→1⋅0=0\frac{x}{\sin x} \cdot x\sin\frac1x \to 1 \cdot 0 = 0.

Aplica-se, mas não ajuda. Tome lim⁡x→∞xx2+1\lim_{x \to \infty} \frac{x}{\sqrt{x^2 + 1}}. É ∞∞\frac{\infty}{\infty} e as hipóteses valem. O quociente das derivadas é 1x/x2+1=x2+1x\frac{1}{x/\sqrt{x^2 + 1}} = \frac{\sqrt{x^2 + 1}}{x}, o inverso do que tínhamos. Aplique a regra de novo e a expressão original volta, para sempre. A ferramenta certa é a álgebra: divida em cima e embaixo por xx, obtendo 11+1/x2→1\frac{1}{\sqrt{1 + 1/x^2}} \to 1. (Para x>0x > 0, x2=x\sqrt{x^2} = x; para x→−∞x \to -\infty o mesmo truque dá −1-1.)

Exemplo 3: outras formas indeterminadas

0⋅∞0 \cdot \infty. lim⁡x→0+xln⁡x\lim_{x \to 0^+} x\ln x. Escreva como ln⁡x1/x\frac{\ln x}{1/x}, uma forma −∞∞\frac{-\infty}{\infty}. O quociente das derivadas é 1/x−1/x2=−x→0\frac{1/x}{-1/x^2} = -x \to 0, então o limite é 00. A outra reescrita, x1/ln⁡x\frac{x}{1/\ln x}, é válida mas produz −xln⁡2x-x\ln^2 x, outra forma 0⋅∞0 \cdot \infty mais difícil que a inicial. Escolha a reescrita cuja derivada simplifica.

∞−∞\infty - \infty. lim⁡x→0(1sin⁡x−1x)=lim⁡x−sin⁡xxsin⁡x\lim_{x \to 0} \left(\frac{1}{\sin x} - \frac1x\right) = \lim \frac{x - \sin x}{x\sin x}, que é 00\frac00. Uma aplicação dá 1−cos⁡xsin⁡x+xcos⁡x\frac{1 - \cos x}{\sin x + x\cos x}, ainda 00\frac00. Uma segunda dá sin⁡x2cos⁡x−xsin⁡x→02=0\frac{\sin x}{2\cos x - x\sin x} \to \frac02 = 0. Os valores em x=0,1x = 0{,}1 e 0,010{,}01 são 0,0166860{,}016686 e 0,0016670{,}001667, coerentes com limite 00.

000^0. lim⁡x→0+xx\lim_{x \to 0^+} x^x. Para x>0x > 0, ln⁡(xx)=xln⁡x→0\ln(x^x) = x\ln x \to 0 pelo item anterior, então xx→e0=1x^x \to e^0 = 1. A restrição a x→0+x \to 0^+ importa: xxx^x em geral não está definida para xx negativo, então não existe limite bilateral.

1∞1^\infty. lim⁡x→∞(1+1x)x\lim_{x \to \infty} \left(1 + \frac1x\right)^x tem ln⁡y=xln⁡(1+1x)=ln⁡(1+1/x)1/x\ln y = x\ln\left(1 + \frac1x\right) = \frac{\ln(1 + 1/x)}{1/x}, uma forma 00\frac00 cujo quociente das derivadas é 11+1/x→1\frac{1}{1 + 1/x} \to 1. Logo o limite é e1=ee^1 = e.

Exemplo 4: comparando taxas de crescimento

Para qualquer p>0p > 0, lim⁡x→∞ln⁡xxp\lim_{x \to \infty} \frac{\ln x}{x^p} é ∞∞\frac{\infty}{\infty}, e o quociente das derivadas é 1/xp xp−1=1p xp→0\frac{1/x}{p\,x^{p-1}} = \frac{1}{p\,x^p} \to 0. Portanto toda potência positiva acaba vencendo o logaritmo. Do mesmo modo, lim⁡x→∞xnex\lim_{x \to \infty} \frac{x^n}{e^x} vira n xn−1ex\frac{n\,x^{n-1}}{e^x}, depois n(n−1)xn−2ex\frac{n(n-1)x^{n-2}}{e^x}, e após nn aplicações n!ex→0\frac{n!}{e^x} \to 0, para qualquer inteiro positivo nn. Para um expoente real p>0p > 0 e x≥1x \ge 1, xp≤x⌈p⌉x^p \le x^{\lceil p\rceil}, logo xpex≤x⌈p⌉ex→0\frac{x^p}{e^x} \le \frac{x^{\lceil p\rceil}}{e^x} \to 0. Logo exe^x acaba vencendo qualquer potência de xx.

Consequência para algoritmos: nln⁡nn1,5=ln⁡nn→0\frac{n \ln n}{n^{1,5}} = \frac{\ln n}{\sqrt n} \to 0, então nln⁡nn \ln n cresce mais devagar que n1,5n^{1,5}. Para este par não há cruzamento a procurar: ln⁡xx\frac{\ln x}{\sqrt x} atinge o pico em x=e2x = e^2 com valor 2e≈0,736\frac2e \approx 0{,}736 e depois cai, então nln⁡n<n1,5n \ln n < n^{1,5} para todo n≥1n \ge 1. A convergência para 00, porém, é lenta:

text
n ln(n)/sqrt(n) 10 0.7281 100 0.4605 10^4 0.0921 10^6 0.0138 10^8 0.0018

O limite de uma variável real xx dá o limite da sequência de inteiros nn por restrição. Um cruzamento distante ocorre em outros pares, como polinômio contra exponencial. n10n^{10} é maior que 2n2^n para todo nn de 22 a 5858 (em n=58n = 58: 258≈2,88×10172^{58} \approx 2{,}88 \times 10^{17} contra 5810≈4,31×101758^{10} \approx 4{,}31 \times 10^{17}), e 2n2^n assume a liderança a partir de n=59n = 59 (259≈5,76×10172^{59} \approx 5{,}76 \times 10^{17} contra 5910≈5,11×101759^{10} \approx 5{,}11 \times 10^{17}). O limite diz quem vence no fim, não onde fica o ponto de cruzamento.

Equívocos Comuns e Armadilhas

  • Derivar o quociente em vez de derivar em cima e embaixo. A regra usa f′g′\frac{f'}{g'}, não (fg)′\left(\frac fg\right)'.
  • Aplicar quando a forma não é indeterminada. O Exemplo 2 dá 22 em vez de 11. Substitua primeiro.
  • "Se f′g′\frac{f'}{g'} não tem limite, fg\frac fg também não tem." Os exemplos de oscilação refutam isso; a regra fica muda, não negativa.
  • Parar tarde ou cedo demais. Reconfira a forma a cada aplicação e simplifique antes de derivar de novo.
  • Usar diretamente em sequências. Uma sequência ana_n não tem derivada. Estenda para uma função de variável real xx, aplique a regra e conclua sobre a sequência a partir do limite da função.
  • Raciocínio circular. Usar a regra para provar que lim⁡x→0sin⁡xx=1\lim_{x \to 0}\frac{\sin x}{x} = 1 pressupõe a derivada de sin⁡x\sin x, que no desenvolvimento usual é provada justamente a partir desse limite.
  • Recorrer a ela por reflexo. Quando a álgebra funciona (dividir pela maior potência, fatorar), costuma ser mais curta e mais segura.

Resumo

A Regra de L'Hôpital diz que, se fg\frac{f}{g} tem a forma 00\frac00 ou ∞∞\frac{\infty}{\infty} perto de aa, as funções são deriváveis com g′≠0g' \ne 0 e f′g′\frac{f'}{g'} tem limite (finito ou infinito), então fg\frac fg tem o mesmo limite. Todas as hipóteses sustentam o resultado. Uma forma não indeterminada dá respostas erradas, como em x2+1x+1\frac{x^2 + 1}{x + 1} em 11. Um quociente de derivadas que oscila deixa a regra muda, como em x+sin⁡xx\frac{x + \sin x}{x}, cujo limite é 11 por confronto. E um limite como xx2+1\frac{x}{\sqrt{x^2 + 1}} gira em círculos sem progresso e cede à álgebra. As outras formas indeterminadas são reescritas como quocientes, e as potências, tomando logaritmos de uma base positiva. Aplicada a taxas de crescimento, a regra mostra que ln⁡x≪xp≪ex\ln x \ll x^p \ll e^x quando x→∞x \to \infty, o cálculo por baixo da comparação de tempos como nln⁡nn\ln n contra n1,5n^{1,5}. O limite diz quem vence no fim, não onde cai um cruzamento, como mostra n10n^{10} contra 2n2^n. A próxima lição, antiderivatives-and-initial-value-problems, roda a derivação ao contrário.

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