Séries de Potências e o Raio de Convergência
Objetivos de Aprendizagem
- Definir uma série de potências centrada em e enunciar a tricotomia da convergência: só em , num intervalo simétrico em torno de , ou em toda parte.
- Calcular o raio de convergência com o teste da razão ou da raiz e depois testar os dois extremos separadamente com os testes de
convergence-tests. - Explicar por que uma série de potências só é igual à sua "forma fechada" dentro do intervalo de convergência, mesmo quando a forma fechada está definida mais longe.
- Enunciar quando a derivação e a integração termo a termo são válidas e mostrar como o comportamento nos extremos pode mudar.
- Ler o raio como a taxa de crescimento exponencial dos coeficientes, e obtê-lo a partir do denominador de uma função geradora como a de Fibonacci.
Contexto e Motivação
Uma série de potências é uma série com uma variável dentro:
Para cada fixo é uma série numérica comum, então valem os testes de convergence-tests. A pergunta nova é para quais a série converge, porque a resposta define o domínio de uma nova função . Polinômios são o caso em que só finitos são não nulos; uma série de potências é "um polinômio de grau infinito", e muitas funções importantes na prática, como , e , podem ser escritas assim. A próxima lição, taylor-and-maclaurin-series-with-error-bounds, mostra como achar os coeficientes e quão precisa é uma truncagem.
Séries de potências importam em computação de duas formas. Na parte numérica, uma série de potências truncada é um tipo de aproximação polinomial (polinômios de Chebyshev, minimax e de interpolação são outros), e para ela o intervalo de convergência decide onde a aproximação é confiável. Na parte combinatória, uma sequência pode ser empacotada numa função geradora . O raio de convergência dessa função informa então quão rápido cresce. Para uma recorrência linear, a função geradora é racional, e seu raio vem das raízes do denominador.
Teoria Central
A tricotomia da convergência
Para uma série de potências , vale exatamente uma das opções:
- Converge só em (raio ).
- Converge absolutamente para todo real (raio ).
- Existe um número tal que converge absolutamente para e diverge para .
O conjunto dos em que converge é o intervalo de convergência: mais, possivelmente, um ou os dois extremos. O teorema não diz nada sobre os extremos . Eles precisam ser verificados um a um, e as quatro combinações acontecem.
Calculando o raio
Aplique o teste da razão aos termos da série em , e não só aos coeficientes. Se existe, os termos têm razão , que é menor que exatamente quando , então (com se e se ). O teste da raiz dá a fórmula geral, que sempre se aplica:
Aplicar o teste da razão aos coeficientes falha em silêncio quando infinitos são zero, por exemplo em , onde . Nesse caso, rode o teste da razão nos termos completos, como faz o Exemplo 2.
Os extremos
Em , os testes da razão e da raiz dão e são inconclusivos. Substitua o extremo para obter uma série numérica comum e use o teste da divergência, a comparação, o teste da integral ou o da série alternada. Por exemplo, tem e diverge nos dois extremos (os termos não tendem a ); converge em e diverge em ; converge nos dois.
Uma série de potências só é função dentro do seu intervalo
Dentro do intervalo de convergência, é uma função. A série geométrica é o modelo: para . O lado direito está definido para todo , mas em a série é , que diverge, embora . A igualdade vale no intervalo de convergência e em nenhum outro lugar.
Derivando e integrando termo a termo
Suponha que tem raio . Então, para (o intervalo aberto), é derivável e
As duas novas séries têm o mesmo raio . Os extremos podem mudar, porque os fatores e alteram a velocidade com que os termos decaem. Séries de potências são especiais nisso: para uma série de funções qualquer, derivar termo a termo não é permitido. Para , que converge para todo por comparação com , a série derivada é a série harmônica em e diverge.
Combinando séries de potências
Somas e múltiplos constantes são termo a termo, e o resultado converge pelo menos onde as duas convergem dentro dos intervalos abertos, então o raio é pelo menos o menor dos dois raios. O produto se calcula com o produto de Cauchy, , e o produto tem raio pelo menos igual ao menor dos dois raios. A convergência num extremo não é herdada: dá uma série que converge em , mas o quadrado de Cauchy tem coeficientes de módulo , que vale em , em e em (tendendo a ), então o produto diverge em . Substituir ou numa série muda o intervalo de acordo: converge para . Os coeficientes de uma série de potências são determinados pela função: (segue de derivar termo a termo e avaliar em ), que é o ponto de partida da próxima lição.
Exemplos Resolvidos
Exemplo 1: centro deslocado e extremos de lados diferentes
Ache o intervalo de convergência de . A razão entre termos consecutivos tem módulo (o teste da raiz dá o mesmo para os coeficientes), então e o intervalo aberto é , centrado em .
Em a série é , que converge pelo teste da série alternada (soma cerca de ). Em é , uma série com , que diverge (as somas parciais são , e com , e termos). O intervalo de convergência é . Fora dele, em os módulos dos termos crescem sem limite, então vale o teste da divergência.
Exemplo 2: convergindo nos dois extremos, e o arco tangente
Considere . Metade dos coeficientes é zero, então rode o teste da razão nos termos: , que é menor que para , logo .
Em a série é , que converge pelo teste da série alternada, então o intervalo é . Essa série é . Em ela dá (esse passo precisa do teorema de Abel: se uma série de potências converge num extremo do intervalo, o valor da função ali é o limite da série quando se aproxima do extremo por dentro). A convergência no extremo é lenta: a cota alternada tem a ordem de grandeza certa, embora o erro real seja cerca de metade da cota. Somando até (isto é, termos), o erro é contra a cota , por isso é uma forma ruim de calcular . Para a mesma série dá com cerca de vinte dígitos usando 31 termos (até ).
Exemplo 3: derivar muda o extremo
Seja , com intervalo (em vale e em vale , ambas convergentes por comparação com ). Derivando termo a termo, , com o mesmo raio . Em é a série harmônica, que diverge; em é , que converge. O intervalo encolhe de para .
Integrando a série geométrica de a obtém-se para , e o teorema de Abel estende isso a , dando . Como conferência numérica, , igual a e à inclinação de por diferenças finitas.
Exemplo 4: o raio como taxa de crescimento (Fibonacci)
Os números de Fibonacci satisfazem perto de (expandir o lado direito dá ). O denominador fatora como com e , e as frações parciais dão
Cada fração é uma série geométrica, convergente para e , respectivamente. A primeira é a condição que manda, porque , então , a menor raiz do denominador em módulo (as raízes são e ). Lendo os coeficientes, , logo : o raio e a taxa de crescimento exponencial são o mesmo fato. O teste da razão concorda, já que .
Nos extremos os termos cumprem , então pelo teste da divergência os dois extremos divergem: o intervalo é o aberto . Dentro, em a série soma , igual a . Fora, em , onde a fórmula dá , as somas parciais disparam: até o termo , até , até e até .
Exemplo 5: o raio não depende de onde a função está definida
tem raio , embora a função seja suave para todo real. Em a série converge (, igual a ). Em , onde , as somas parciais são , e com , e termos (até , e ), e continuam crescendo em módulo. O obstáculo está em , dois pontos do plano complexo a distância do centro, que o gráfico real nunca mostra. Em os termos são , que não tendem a , então vale o teste da divergência.
Equívocos Comuns e Armadilhas
- "O intervalo de convergência é ." Esse é o intervalo em que a convergência absoluta é garantida; se os extremos pertencem a ele é outra questão. Cada extremo é uma pergunta à parte, e os testes da razão e da raiz não a respondem.
- "Se a função está definida em , a série converge ali." O Exemplo 5 e a série geométrica discordam: a série reproduz a função só dentro do intervalo.
- "O teste da razão nos coeficientes sempre funciona." Falha quando há infinitos coeficientes nulos. Use os termos, ou a fórmula do teste da raiz.
- "Derivar preserva o intervalo." O raio é preservado; os extremos podem não ser (Exemplo 3).
- "O raio é determinado pelo ponto em que a função tem problema na reta real." O Exemplo 5 mostra uma função suave em toda a reta com raio .
- "O raio de uma soma é o menor dos dois raios." É pelo menos o menor, e pode ser maior: é identicamente , com .
Resumo
Uma série de potências converge num intervalo centrado em com raio . Converge absolutamente por dentro, diverge por fora, e cada extremo precisa ser testado à parte (com os testes da divergência, de comparação, da integral ou da série alternada), onde os quatro desfechos são possíveis. Uma série de potências só é igual à função associada dentro do intervalo. No intervalo aberto ela pode ser derivada e integrada termo a termo com o mesmo raio, mas o comportamento nos extremos pode mudar. O raio também mede o crescimento dos coeficientes, como mostra a função geradora de Fibonacci, e pode ser limitado por singularidades que vivem no plano complexo. A próxima lição, taylor-and-maclaurin-series-with-error-bounds, constrói essas séries a partir das derivadas de uma função e quantifica o erro de cortá-las.