Usabilidade e sua Definição (ISO 9241-11)

Published on 2026-11-04·v1.0

Objetivos de Aprendizagem

  • Enunciar de que a ISO 9241-11 faz a usabilidade depender, e dizer de qual edição vem uma dada redação.
  • Listar o que fontes abertas relatam sobre a revisão de 2018 e reconhecer o que elas não mostram, já que o texto da norma é vendido.
  • Transformar eficácia, eficiência e satisfação em medidas sobre uma tarefa concreta, com regra de contagem declarada.
  • Mostrar com um exemplo calculado que duas medidas das mesmas sessões podem ordenar dois designs em sentidos opostos.
  • Separar o modelo da ISO dos cinco componentes de Nielsen e da característica do lado do produto na ISO/IEC 25010.

Contexto e Motivação

fitts-law-and-hicks-law prevê o tempo de um movimento de apontar ou de uma escolha. Esses modelos não dizem se a pessoa conseguiu o que veio buscar. "Este app é fácil de usar" tem o problema oposto: fala do resultado inteiro, mas não nomeia pessoa, objetivo nem situação, então nenhum teste consegue reprová-la.

Lewis e Sauro (2020) contam que, nas décadas de 1980 e 1990, a área não tinha definição acordada, e que a Parte 11 da ISO 9241 foi a resposta: primeiro rascunho em 1988, primeira edição publicada em 15 de março de 1998, substituída em 2018. O preço da precisão é que usabilidade deixa de ser uma propriedade única. Vira uma afirmação sobre usuários, objetivos e contexto especificados, e é isso que a torna mensurável.

Teoria Central

O que as fontes gratuitas mostram

O texto da ISO 9241-11 é vendido, então toda redação abaixo vem de uma fonte aberta que a relata, e cada fonte é nomeada. Duas delas imprimem uma frase apresentada como a definição, e a citação fica no inglês original:

Fonte Edição Redação como impressa ali
Speicher (arXiv, citando a ISO 9241-11:1998) 1998 "The extent to which a product can be used by specified users to achieve specified goals with effectiveness, efficiency and satisfaction in a specified context of use."
Página da W3C WAI, atualizada em 6 de maio de 2016 Não nomeia edição; é anterior a 2018 "extent to which a product can be used by specified users to achieve specified goals effectively, efficiently and with satisfaction in a specified context of use"

As duas diferem no trecho do meio, e só o texto comprado decide qual é literal. Trate ambas como relatos. Nenhuma é a frase de 2018, e nenhuma redação de 2018 é citada aqui, porque as fontes usadas para a revisão descrevem as mudanças sem reimprimir essa frase.

O que a definição exige

Leia a frase de 1998 como um formulário com lacunas. Speicher a transforma numa quíntupla:

usability∈LEVEL×PRODUCT×USERS×GOALS×CONTEXT\text{usability}\in\text{LEVEL}\times\text{PRODUCT}\times\text{USERS}\times\text{GOALS}\times\text{CONTEXT}

em que LEVEL diz se as métricas são internas, externas ou de uso. O argumento dele é que "usabilidade" não nomeia nada até os elementos terem valores. Ele cita a observação de Brooke: "Usability does not exist in any absolute sense; it can only be defined with reference to particular contexts."

Yamauchi e Ito, resumindo a edição de 1998, listam o que medir exige: uma descrição dos objetivos pretendidos, uma descrição do contexto (usuários, tarefas, equipamento, ambientes), valores-alvo de eficácia, eficiência e satisfação, e pelo menos uma medida de cada. Acrescentam que a norma não dá regra concreta para escolher as medidas, porque a importância relativa dos atributos depende do contexto e do propósito.

Os três componentes na edição de 1998

A coluna do meio é o resumo de Yamauchi e Ito, e a última é a lista de exemplos que Lewis e Sauro relatam da edição de 1998.

Componente Sentido em 1998 Medidas de exemplo
Eficácia (effectiveness) Acurácia e completude com que os usuários atingem os objetivos especificados Porcentagem de objetivos atingidos; porcentagem de usuários que completam a tarefa; acurácia média das tarefas completadas
Eficiência (efficiency) Recursos gastos em relação a essa acurácia e completude Tempo para completar a tarefa; tarefas completadas por unidade de tempo; custo monetário de realizar a tarefa
Satisfação (satisfaction) Ausência de desconforto e atitudes positivas em relação ao uso Escala de avaliação; frequência de uso voluntário; frequência de reclamações

Nada aqui é fórmula. Cada linha é uma família de medidas, e o estudo precisa escolher uma e defini-la.

O que a revisão de 2018 mudou (livro vs hoje)

A nota de alterações no registro de catálogo da DIN compara a DIN EN ISO 9241-11:2018-11 com a antecessora alemã de 1999. Ela está em alemão, e isto é um resumo traduzido:

  • O título mudou. A referência de Speicher dá o título da parte em 1998 como Guidance on usability, e o registro dá Usability: Definitions and concepts para 2018.
  • O escopo foi ampliado para incluir sistemas e serviços.
  • Considera-se uma faixa maior de objetivos, incluindo resultados pessoais e organizacionais.
  • A eficiência passa a ser definida em relação aos resultados alcançados, e não à acurácia e completude.
  • A satisfação passa a considerar uma faixa maior de aspectos.

O resumo de escopo do registro acrescenta que o documento explica a usabilidade como resultado do uso, e que ele se aplica a sistemas interativos e outros (inclusive ambientes construídos), produtos e serviços.

Lewis e Sauro acrescentam dois pontos da revisão: foram incluídas as possíveis consequências negativas do uso (saúde, segurança, proteção, privacidade, confiança), e o rascunho revisado deixou de dar orientação específica sobre como medir usabilidade. Eles observam que a orientação se mudou, não sumiu: a ISO/IEC 25066 cobre o formato de relatório e a ISO/IEC 25022, as medidas.

Portanto, um livro que diz "a product" e define eficiência por acurácia e completude está relatando 1998. Os conceitos em si continuam: Lewis e Sauro, citando Bevan et al. (2016), dizem que a nova versão os manteve, ampliando o escopo.

Resultado do uso, não propriedade do artefato

Como usabilidade é um resultado, uma interface não tem um número único de usabilidade. the-iso-iec-25010-quality-model cita a edição de 2023 daquela norma chamando interaction capability de "a prerequisite for usability": a característica do lado do produto é algo que você constrói, e a eficácia, a eficiência e a satisfação do uso real são o que você observa depois.

Acessibilidade cabe no mesmo formulário. A página da W3C observa que a definição poderia cobri-la quando os "specified users" incluem pessoas com diversas deficiências e o contexto inclui tecnologias assistivas, e que a prática de usabilidade muitas vezes não considera essas necessidades. As lacunas decidem quem conta.

Outro modelo: os cinco componentes de Nielsen

O artigo "Usability 101" de Nielsen (2012, revisado em 15 de julho de 2026) define usabilidade por cinco componentes de qualidade: learnability, efficiency, memorability, errors e satisfaction. Ele a separa de utility e define usefulness como usability mais utility. A efficiency dele significa com que rapidez os usuários fazem as tarefas depois de aprender o design, o que é mais estreito que a eficiência da ISO. Dizer "eficiência" num relatório sem dizer qual convida a uma discussão sobre nada.

Medidas não substituem umas às outras

Sauro (2011) relata que escores SUS pós-teste se correlacionam com conclusão de tarefa e tempo em torno de r=0,24r=0{,}24, o que ele lê como cerca de 6% da variância. Pessoas podem encontrar problemas graves e ainda dar nota alta. Isso dá à exigência de 1998, de uma medida para cada atributo, uma base prática: um número não representa os outros de forma confiável.

Exemplos Resolvidos

Todos os números desta seção são fictícios. Foram escritos para esta lição, só para exercitar a aritmética, e nenhum estudo assim existe.

Exemplo 1: preenchendo as lacunas

text
Produto site de agendamento de clínica, versão 3 Usuários pacientes adultos agendando pela primeira vez, sem treino Objetivo marcar consulta com clínico geral em data e hora indicadas Contexto celular próprio, dados móveis, sem ajuda da equipe Nível de uso

Agora os três componentes têm referência. Sucesso significa que a consulta existe, com médico, data e hora certos, e que o paciente recebeu a confirmação. Dizer isso antes das sessões importa, como mostra o Exemplo 3.

Uma segunda afirmação de usabilidade, sobre uma recepcionista que agenda para um paciente num desktop, de headset, usa o mesmo produto e tem outros usuários, outro objetivo e outro contexto. Um resultado de uma não diz nada direto sobre a outra.

Exemplo 2: três medidas, um conjunto de sessões

O design A é um formulário único. O design B acrescenta uma tela de revisão antes de confirmar. São doze sessões fictícias por design, com nota de 1 a 7 depois da tarefa:

text
Design A Design B sucessos estritos 8/12 11/12 taxa de sucesso 66.7% 91.7% intervalo de Wilson de 95% 39-86% 65-99% tempo médio, só sucessos 120.0 s 199.5 s tempo médio, as 12 sessões 166.25 s 201.25 s tempo total 33.25 min 40.25 min sucessos por minuto 0.241 0.273 nota média 4.33 5.17 nota média, só sucessos 5.25 5.27

O tempo médio entre os sucessos diz que A é mais rápido por quase 80 segundos. Sucessos por minuto de tempo total, a medida de tarefas por unidade de tempo da lista de 1998, diz que B está à frente por cerca de 14%, já que as três sessões abandonadas de A (285 a 310 s) custaram tempo e não renderam nada. Os dois números estão corretos e respondem a perguntas diferentes. Filtrar por sucessos esconde as falhas, então diga qual você usou.

A nota segue o mesmo padrão: a diferença de 0,83 ponto quase some entre os sucessos, então ela vem das sessões que falharam.

Nada disso prova que B é melhor. Os intervalos se sobrepõem bastante, e um teste exato de Fisher bicaudal de 8/12 contra 11/12 dá p=0,32p=0{,}32. Doze sessões mostram uma direção, não uma diferença resolvida.

Exemplo 3: a regra de contagem move a eficácia

Uma sessão em cada design marcou a data errada. O artigo de Nielsen sobre taxa de sucesso (2001, revisado em 2021) chama data errada de problema maior numa tarefa de pedido parecida, e descreve tanto a pontuação estrita quanto níveis de sucesso parcial.

text
Design A Design B data errada = falha 8/12 = 66.7% 11/12 = 91.7% data errada = sucesso 9/12 = 75.0% 12/12 = 100%

Numa clínica, o paciente que chega no dia errado não atingiu o objetivo, então a pontuação estrita faz sentido. Em outro produto, um deslize menor poderia contar. A regra pertence ao plano, escrita antes de os dados existirem, porque depois de ver 12/12 ninguém defende a mais rígida.

Exemplo 4: de um requisito vago a um requisito testável

"O fluxo de agendamento deve ser fácil de usar" não tem como falhar. Usando as lacunas do Exemplo 1:

text
Para pacientes adultos de primeira vez, no próprio celular, sem ajuda: eficácia pelo menos 85% marcam o horário correto (regra estrita) eficiência pelo menos 0.25 sucesso por minuto de tempo total satisfação nota média pós-tarefa de pelo menos 5 em 7

As metas são escolhas para esta clínica fictícia, não valores de norma alguma. Os 91,7% do design B passam da primeira meta, mas o limite inferior de Wilson é 64,6%, então doze sessões não mostram que a taxa verdadeira chega a 85%. Com 18 de 20 a taxa é 90%, e o intervalo ainda vai de 69,9% a 97,2%. O conselho habitual de Nielsen, de 20 usuários por design para métricas (2001), é uma regra prática para um intervalo razoavelmente estreito, e uma proporção perto de uma meta exigente pode pedir mais. O tamanho de amostra volta em usability-testing-and-the-system-usability-scale.

Equívocos Comuns e Armadilhas

  • "Este produto tem alta usabilidade." Sem usuários, objetivos e contexto, a frase não tem valor de verdade. O Exemplo 1 mostra duas afirmações diferentes sobre um produto.
  • "A ISO 9241-11 diz como medir usabilidade." No resumo de Yamauchi e Ito, a edição de 1998 não dá regra para escolher medidas, e Lewis e Sauro relatam que a orientação de medição saiu do rascunho revisado para outras normas.
  • "Eficiência é tempo de tarefa." Tempo é uma medida. O Exemplo 2 mostra que tempo e sucessos por minuto podem apontar em sentidos opostos.
  • "A definição que li no livro é a atual." Se ela diz só "a product", relata a primeira edição ou a segue.
  • "Nielsen e a ISO definem a mesma coisa." Compartilham o nome e se sobrepõem em parte. A eficiência da ISO e a de Nielsen não são intercambiáveis.
  • "Satisfação decorre de bom desempenho." A correlação de cerca de 0,24 relatada por Sauro é um argumento contra supor isso.

Resumo

A ISO 9241-11 amarra a usabilidade a usuários, objetivos e contexto de uso especificados, e a julga por eficácia, eficiência e satisfação. A redação de 1998 fala de um produto. Segundo a nota de alterações da DIN, a edição de 2018 ampliou o escopo para sistemas e serviços, alargou os objetivos, redefiniu a eficiência em relação aos resultados alcançados e ampliou a satisfação, e Lewis e Sauro relatam que a orientação de medição foi para outras normas. A redação literal está no texto vendido, então fontes abertas são relatos e precisam ser rotuladas por edição. Cada componente só vira medida com uma regra de contagem fixada antes. Medidas podem discordar nas mesmas sessões, e amostras pequenas mostram uma direção mais vezes do que um veredito.

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