Regularização: Ridge e Lasso
Objetivos de Aprendizagem
- Explicar a ideia geral da regularização: restringir a capacidade efetiva de um modelo penalizando valores grandes de parâmetros, sem mudar a contagem bruta de parâmetros do modelo.
- Enunciar os termos de penalidade ridge (L2) e lasso (L1) e suas funções objetivo combinadas.
- Explicar a razão geométrica pela qual o lasso consegue encolher coeficientes exatamente a zero e o ridge não, usando a forma da região de restrição de cada penalidade.
- Rastrear, num pequeno exemplo resolvido, como aumentar a força da regularização muda os coeficientes ajustados.
Contexto e Motivação
Os dois conceitos anteriores estabeleceram que o overfitting vem de uma classe de modelos com capacidade efetiva grande demais em relação aos dados disponíveis, medida com rigor pela dimensão VC. A regularização é a contramedida prática mais direta: em vez de mudar a forma estrutural do modelo (menos features, um polinômio de grau menor), ela restringe o quanto os parâmetros ajustados podem crescer, acrescentando à função de perda um termo de penalidade que cresce com o tamanho do vetor de parâmetros. Isso reduz a capacidade efetiva de um modelo sofrer overfitting sem descartar nenhuma feature de vez, ou, no caso do lasso, descarta automaticamente as menos úteis.
Teoria Central
Regressão ridge (penalidade L2)
A regressão ridge acrescenta à perda comum de mínimos quadrados uma penalidade proporcional à soma dos coeficientes ao quadrado:
textJ_ridge(θ) = ‖Xθ − y‖² + λ · Σⱼ θⱼ²
em que λ ≥ 0 é um hiperparâmetro que controla a força da penalidade: λ = 0 recupera exatamente os mínimos quadrados comuns, e um λ maior encolhe cada coeficiente em direção a zero de forma mais agressiva, embora raramente exatamente a zero.
Regressão lasso (penalidade L1)
O lasso troca a penalidade dos coeficientes ao quadrado pela soma dos valores absolutos:
textJ_lasso(θ) = ‖Xθ − y‖² + λ · Σⱼ |θⱼ|
A forma matemática parece parecida, mas o comportamento difere bastante: o lasso consegue encolher alguns coeficientes exatamente a zero, fazendo na prática uma seleção automática de features ao descartar as de que o modelo não precisa. O ridge, em contraste, encolhe cada coeficiente em direção a zero, mas essencialmente nunca zera um deles exatamente.
A razão geométrica da diferença
Os dois objetivos penalizados podem ser entendidos como mínimos quadrados comuns sujeitos a uma região de restrição: o ridge restringe θ a ficar dentro de um círculo (ou uma esfera em dimensões maiores), enquanto o lasso restringe θ a ficar dentro de um losango (uma forma com cantos pontudos sobre os eixos). A solução de mínimos quadrados, quando restrita a ficar dentro de qualquer uma das regiões, tende a cair no ponto da região mais próximo do ótimo sem restrição. Como os cantos do losango ficam exatamente sobre os eixos coordenados (onde um coeficiente é zero), o ótimo restrito frequentemente cai precisamente num canto, zerando exatamente aquele coeficiente. O círculo não tem cantos, então o ótimo restrito pode cair em qualquer ponto da borda, essencialmente nunca exatamente sobre um eixo, e é exatamente por isso que o ridge encolhe, mas não zera, os coeficientes.
Exemplos Resolvidos
Exemplo 1: o ridge encolhendo coeficientes conforme λ aumenta
Suponha que os mínimos quadrados comuns (λ = 0) ajustem θ = [θ₁, θ₂] = [5.0, 3.0] para uma regressão com duas features. Aumentando a penalidade ridge:
textλ = 0: θ = [5.00, 3.00] (sem encolhimento: mínimos quadrados comuns) λ = 1: θ = [4.20, 2.55] (os dois coeficientes encolhem em direção a 0, nenhum chega lá) λ = 10: θ = [2.10, 1.35] (mais encolhimento, os dois ainda não nulos) λ = 100: θ = [0.45, 0.30] (encolhimento forte: os dois quase zero, mas não exatamente)
Os dois coeficientes encolhem juntos, proporcionalmente, conforme λ cresce, mas nenhum é levado precisamente a zero mesmo com λ muito grande, coerente com a região de restrição circular do ridge, que não tem cantos.
Exemplo 2: o lasso zerando um coeficiente
Ajustando os mesmos dados com lasso, a uma força de penalidade comparável:
textλ = 0: θ = [5.00, 3.00] (mínimos quadrados comuns) λ = 1: θ = [4.10, 2.30] λ = 5: θ = [2.60, 0.90] λ = 8: θ = [1.20, 0.00] ← θ₂ foi levado exatamente a zero λ = 12: θ = [0.00, 0.00] ← os dois coeficientes agora exatamente zero
Em λ = 8, o lasso na prática tirou a segunda feature do modelo por completo: seu coeficiente é exatamente zero, e não só pequeno. É um efeito real e calculável de seleção de features que o ridge, aplicado aos mesmos dados, não produziria com nenhum λ finito.
Equívocos Comuns e Armadilhas
- "A regularização sempre melhora um modelo." A regularização troca algum aumento de viés por uma redução de variância, exatamente a troca viés-variância vista antes nesta disciplina. Uma força de regularização grande demais pode levar o modelo ao underfitting, encolhendo coeficientes úteis em direção a zero junto com os inúteis.
- "O lasso é estritamente melhor que o ridge porque faz seleção de features." A seleção de features do lasso é útil especificamente quando muitas features são de fato irrelevantes, mas, quando as features são altamente correlacionadas entre si, o lasso tende a escolher arbitrariamente uma e zerar as outras, enquanto o ridge encolhe as features correlacionadas juntas, de forma mais equilibrada. A melhor escolha depende genuinamente da estrutura das features reais.
- "A força de regularização λ deve ser escolhida para minimizar o erro de treino." Minimizar o erro de treino em relação a
λsempre favoreceλ = 0(sem regularização), já que a regularização existe justamente para sacrificar parte do ajuste de treino em troca de melhor generalização.λprecisa ser escolhido usando um conjunto de validação separado ou validação cruzada (o próximo conceito desta disciplina), nunca só o conjunto de treino.
Resumo
A regularização restringe a capacidade do modelo acrescentando à função de perda uma penalidade sobre o tamanho dos coeficientes, combatendo diretamente o risco de overfitting quantificado pela dimensão VC. A penalidade de coeficientes ao quadrado da regressão ridge encolhe todos os coeficientes suavemente em direção a zero sem eliminar nenhum; a penalidade de valor absoluto do lasso consegue levar alguns coeficientes exatamente a zero, fazendo seleção automática de features, uma consequência geométrica real dos cantos pontudos da região de restrição em losango do lasso versus a região circular, sem cantos, do ridge. Escolher a força de regularização corretamente exige um conjunto de validação separado, nunca os dados de treino aos quais o modelo foi ajustado.